Nasceu num rincão de terra seca,
Los Toldos, berço de poeira e sonho,
filha sem sobrenome legítimo,
cinco irmãos, mãe de mãos calejadas,
um pai que partiu como sombra fugidia.
Aos quinze, o trem a levou para Buenos Aires —
cidade de luzes falsas e portas fechadas.
Microfone na mão, voz que tremia e crescia,
rádio, teatro, cinema: Evita ensaiava
o papel que o destino ainda não sabia.
Então veio ele, militar de olhar firme,
numa noite de terremoto e solidariedade.
Luna Park, 1944 — o encontro que mudou tudo.
Do abraço nasceram promessas,
do casamento, uma nação inteira.
Primeira-dama sem título de rainha,
mas com coroa de mãos estendidas.
Fundação que era ponte, era remédio, era pão,
casas para os sem-teto, escolas para os esquecidos,
direito ao voto para as mulheres que esperaram séculos.
“Eu sei o que o povo sofre”, dizia ela,
com o peito aberto como uma ferida generosa.
Vestida de Dior, mas alma de descamisados,
distribuía esperança como quem semeia estrelas
num céu que sempre foi dos ricos.
O câncer veio quieto, traiçoeiro,
roubando aos poucos a luz daqueles olhos negros.
Aos 33, o corpo frágil já não aguentava,
mas a voz ainda gritava:
“Voltarei e serei milhões”.
Morreu em julho, o país parou de respirar.
Choraram nos subúrbios, nas fábricas, nas vilas,
enquanto os palácios silenciavam o luto.
Embalsamada, imortalizada,
Evita não se foi — virou bandeira, virou hino, virou chama.
Hoje, quando o vento sopra nas pampas,
ou quando uma mulher levanta a voz por justiça,
é ela quem sussurra no ouvido do tempo:
“Não me chorem, lutem.
Eu sou o povo que não se cala mais”.
