A pobreza no Reino Unido atingiu níveis críticos em 2024-2025, com cerca de 14,2 milhões de pessoas (um em cada cinco) obrigados a viver abaixo da linha de pobreza, o nível mais alto em 30 anos.
Estas são notícias recentes veiculadas na mídia europeia, e possuem em comum o fato de o maior e o terceiro PIB’s da Europa enfrentarem um fenômeno que se pensava exclusivo dos países periféricos da América Latina, Ásia e África.
Outro fenômeno que também se observa nestes dois países é a rápida expansão da extrema direita. No Reino Unido, ultra direitistas como Tommy Robinson e Nigel Farage reuniram mais de 100 mil pessoas em manifestações em Londres em setembro de 2025, e o partido extremista Reform conseguiu eleger cinco deputados para o parlamento pela primeira vez.
Na Alemanha a situação é mais grave ainda. O AfD, partido inspirado diretamente no ideário nazista, ocupa 151 cadeiras do parlamento (24%) e já venceu eleições regionais em um dos estados do país, a Turíngia, se tornando importante força política capaz de influenciar decisões do executivo. Não por acaso se vê tanto no Reino Unido como na Alemanha o endurecimento de políticas migratórias, principal pauta dos extremistas de direita na Europa.
E qual a relação há entre a elevação da pobreza, a expansão da extrema direita e o endurecimento de políticas migratórias, fenômeno que também se observa em outros países da Europa, como Portugal? A resposta reside no falso discurso da extrema direita que busca eleger um alvo para justificar a piora da condição de vida de suas populações, e o alvo predileto e mais fácil de apontar são os imigrantes, sobre quem recaem as “culpas” pela piora da condição de vida da população como um todo, uma vez que, os discursos da extrema direita focam em um suposto elevado gasto social dos Estados com os imigrantes, além da suposta elevação de gastos públicos com a segurança em face de uma também suposta piora da segurança com a presença deles.
Este discurso se reveste de um cinismo e de uma perversidade gritantes. No geral, os líderes deste espectro político sabem que esta não é a causa estrutural do problema. A causa está centrada no modelo econômico seguido por estes países e por quase todo o mundo: o ideário neoliberal, que desregula a economia, reduz a presença do Estado, sufoca os movimentos sociais, deprime os salários, libera a especulação financeira e permite a absoluta liberdade de circulação de capital, pilares com os quais os extremistas de direita defendem, embora não verbalizem.
Não por acaso também se observa nestes países e em inúmeros outros cuja condução da política econômica está lastreada no neoliberalismo o aumento da desigualdade social, com a renda cada vez mais concentrada o fenômeno da expansão expressiva de multimilionários.
Ao se observar a concentração de riqueza nos extremos (mais pobres e mais ricos) destes países se percebe uma piora nos indicadores. No Reino Unido, atualmente as 50 famílias mais ricas detêm mais riqueza que e a metade mais pobre da população. Na Alemanha, os 10% mais ricos concentram 63% da riqueza do país ao mesmo tempo que ao final de 2025 haviam13.3 milhões de habitantes (16,1% da população) em risco de pobreza, um aumento de 200 mil pessoas quando comparado com o ano anterior.
Outro dado alarmante sobre o aumento expressivo da desigualdade reside nos números compilados pela OXFAM sobre distribuição de renda no mundo, apresentando o tamanho da riqueza que os multimilionários possuem e a proporção de concentração da renda nacional nas mãos destes, fato presente não apenas na Alemanha e Reino unido, mas também em inúmeros outros países como os EUA, o Brasil, etc. Para se ter uma ideia, os 1% mais ricos do mundo possuíam mais riqueza que 95% da população em 2024, sendo donos de 43% dos ativos financeiros globais. Esta fortuna nas mãos de 1% da população global seria suficiente para erradicar a pobreza no mundo 22 vezes, ainda segundo a OXFAM.
Estes dados, e muitos outros mais sobre renda disponíveis em sites como Banco Mundial, OXFAM, e outros que se dedicam ao tema, deixam claro que a piora da condição de vida das pessoas decorre de um modelo econômico que à extrema direita nem à direita interessam mudar, visto que defendem estes modelos excludentes de sociedade baseados na convicção de que a desigualdade é fator inerente a ela e condição “sine qua non” da natureza humana, como pregaram os artífices deste modelo como Milton Friedman, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek.
Assim, estes atores políticos se assentam sobre um nível baixo de informação da população como um todo, e direciona a raiva dos cidadãos pela piora de condição de vida a um alvo fácil de ser identificado e perseguido, os imigrantes principalmente. Até porque dentre os defensores e financiadores destes movimentos extremistas se encontram inúmeros bilionários a quem interessa deixar intacto este modelo econômico perverso que os favorece. Não a toa figuras emblemáticas como Elon Musk e Mark Zuckerberg são apoiadores ferrenhos de Trump, o grande baluarte deste movimento em nível mundial.
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Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa
