Notibras

Finalmente um varão

O ano exato desse acontecido é por volta de pouca coisa antes ou depois da fundação de Brasília, a então novíssima capital do Brasil. E foi nesse período que teria nascido o primeiro varão do casal Francisca e Francisco. Isso após a chegada de sete meninas: Maria José, Maria Eunice, Maria Lúcia, Maria Odete, Maria Joaquina, Maria Regina e Maria Clara.

Barriga pontuda era certeza de que se tratava de menino. Francisca sabia pelo brilho no olhar do marido que ele estava orgulhoso. Coisas de homem, que faz questão de manter o sobrenome da família. Como se o Oliveira do sujeito fosse distinguir o moleque de tantos outros.

Francisca, assim que sentiu que o momento havia chegado, mandou o marido ir buscar dona Lia, a parteira da localidade, cujas mãos experientes haviam trazido ao mundo inúmeras crianças, incluindo as sete filhas do casal. A mulher morava em uma ruela sem qualquer sinalização, o que não parecia empecilho para encontrá-la, já que todos a conheciam praticamente como se santa fosse.

— Dona Lia não está.

— Mas já chegou a hora do Aizenráuer nascer.

Aqui vale um adendo. É que o casal ouvira no rádio o nome do então presidente dos Estados Unidos, Dwight David Eisenhower, e desejou lhe fazer uma homenagem. Na verdade, nem era questão de homenagem, mas de sonoridade.

— Eita, que nosso filho vai ser importante.

— E não é, Francisca? Aizenráuer Oliveira.

— Aizenráuer Pereira Oliveira.

— Sim, mulher! Vai ter o seu Pereira também, que nem as nossas meninas.

Mas voltando ao momento em que Francisco, agoniado por não ter encontrado a parteira em casa, queria saber o paradeiro da senhora.

— E onde ela tá, que meu menino já tá pra nascer.

— Ela tá na casa da Antônia.

— A Antônia do Antônio?

— Sim.

— Num é possível que a Antônia resolveu parir justamente hoje.

— Pelo adiantar das horas, acho até que já pariu. Se você correr lá, é capaz de encontrar dona Lia com o bebê no colo.

Não deu outra. Assim que Francisco chegou à residência do casal Antônia e Antônia, a parteira estava passando a rebenta para a mãe.

— Dona Lia, pelo amor de Deus! A senhora precisa correr lá em casa.

— E o que foi, Francisco?

— O Aizenráuer tá que tá cutucando as partes da Francisca.

E lá foi dona Lia e o sujeito desesperado acudir a grávida. Assim que chegaram, a parteira, questão de minutos, conseguiu ajudar o bebê a nascer. Um garoto bonitão e, pelo choro, provido de pulmões saudáveis.

Tudo parecia perfeito e, alguns dias após, Francisco foi registrar o filho. Todavia, o tabelião bateu o pé e mostrou quem é que manda.

— Esse nome não registro! Vai ser Alzemar e pronto!

E foi o que deu para arranjar. Entre tantas Marias, o caçula, único varão, ficou sendo Alzemar Oliveira. Ah, e com Pereira no meio.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Sair da versão mobile