Você conhece alguém que conta histórias? Se conhece, na próxima vez que encontrar essa pessoa, olhe-a nos olhos e agradeça por cada sorriso, cada emoção, cada lágrima… por todas as vezes em que ela fez você se sentir vivo. Contadores de histórias são seres especiais, e a narrativa a seguir é uma prova disso.
Há alguns dias, enquanto atendia a uma demanda no trabalho, deparei-me com um livro sobre a mesa de uma colega. A capa me chamou a atenção de imediato, assim como o título acolhedor: A alma perdida, de Olga Tokarczuk, com ilustrações de Joanna Concejo. Curioso como sempre fui, parei por alguns instantes para observá-lo e comentei com minha amiga o quanto aquele livro me parecia bonito. Fiz isso porque sei que nenhum amante da literatura deixa passar despercebido um encontro assim, sem mencionar os encantos que tornam certas obras verdadeiramente especiais. No fundo, eu queria que ela me falasse sobre o livro. Mas fui surpreendido pela resposta:
— Diga-me um dia em que você esteja com tempo disponível e eu te contarei essa história.
Eu já conhecia os dons narrativos da Flávia. Já havia testemunhado ela usar sua voz reconfortante e variações de entonação precisas para transformar impaciência em silêncio atento, acalmando um grupo de crianças entediadas que aguardavam o início de um evento do Dia das Crianças no trabalho.
Aguardei com entusiasmo o momento de viver aquela experiência singular de, como uma criança, simplesmente me entregar à escuta de uma história inspiradora. Encontramo-nos no décimo andar do prédio, envoltos por uma das vistas mais belas de Brasília. Por alguns instantes, esqueci que estava no ambiente de trabalho e permiti-me esvaziar a mente das urgências para alimentar o espírito.
Não sei se minha amiga tinha noção da grandiosidade do gesto — acredito que não, afinal, não tínhamos muita intimidade e nossas conversas costumavam se limitar a assuntos burocráticos — mas, ao dedicar seu tempo para me oferecer aquele instante de reflexão, ela me apresentou uma história que se conecta profundamente com conceitos de vida que venho adotando em busca de mais plenitude e felicidade. Foi um momento mágico.
A admiração que eu já sentia por ela no campo profissional cresceu ainda mais quando percebi sua sabedoria. Desde então, venho refletindo sobre como seria enriquecedor se resgatássemos o costume de ouvir contadores de histórias, dando a eles o mesmo respeito que tinham, por exemplo, nas antigas culturas árabes, onde toda aldeia tinha seu narrador devido à sua grande importância.
À Flávia, esse anjo guardião do conhecimento, desejo que nunca lhe faltem aventuras, surpresas, recompensas, amores e tudo aquilo que continue a inspirar o seu dom de usar as palavras. Que cada nova história que cruzar o seu caminho encontre em você um lar sensível e atento, que sua voz siga abrindo portas invisíveis na imaginação alheia, que sua generosidade em compartilhar narrativas seja sempre retribuída com encontros luminosos, daqueles que transformam dias comuns em memórias inesquecíveis.
