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Flávio, defensor de armas e tortura, agora quer se tornar evangélico

Confesso que sorri quando li a notícia: neste domingo, 28, Flávio Bolsonaro entregou sua vida pra Jesus em um culto na Igreja Batista da Lagoinha. Um domingo comum, aparentemente, mas com aquele cheirinho conhecido de calendário eleitoral se aproximando. Falta menos de um ano para as eleições e, embora exista esse folclore nacional de que “o ano só começa depois do Carnaval”, não se enganem: pra político, o ano começou faz tempo e, pelo visto, já começou ajoelhado.

Não é novidade pra ninguém que o eleitorado evangélico é disputadíssimo. É ali que mora um dos maiores capitais eleitorais do país. Flávio Bolsonaro sabe disso, assim como muitos outros pré-candidatos que, de repente, descobriram uma fé ardente, urgente e altamente fotogênica. Mas sejamos honestos: só a conversão não vai bastar. O público é exigente. Fé morna não performa bem nas urnas.

Michelle Bolsonaro, por exemplo, subiu o sarrafo. Falou em línguas estranhas, fez dancinha pentecostal, incorporou a personagem com entrega e convicção. Não foi pouca coisa. Depois daquilo, não dá mais pra aparecer só dizendo “aceitei Jesus” e achar que tá tudo resolvido. Flávio vai ter que se esforçar. Talvez virar pregador. Quem sabe até pastor. Porque, nesse campeonato, não vence quem apenas acredita. Vence quem convence.

E convenhamos: os evangélicos não se deixam enganar assim tão facilmente. Eles reconhecem quando a fé é vivida e quando é ensaiada. Não basta frequentar um culto aqui, uma oração ali, uma foto com a Bíblia estrategicamente aberta. É preciso repertório, performance, testemunho e, de preferência, alguma unção convincente.

Algo me diz que daqui pra frente veremos uma verdadeira epidemia de conversões políticas. Políticos descobrindo a fé aos 45 do segundo tempo, frequentando cultos com fervor repentino, participando de marchas pra Jesus, correntes de oração, vigílias e tudo mais que renda bons cliques e melhores intenções de voto.

Nada contra a fé, que fique claro. Mas quando ela aparece sempre em ano pré-eleitoral, com hora marcada, fotógrafo a postos e discurso afinado, fica difícil não perceber que, em muitos casos, o altar virou palanque. E Jesus, coitado, segue sendo o cabo eleitoral mais requisitado do país.

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