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Flávio e a querela com o vinho

Abriu os olhos, tentou se acostumar com a claridade que entrava pela fresta da cortina entreaberta. O gosto acre na língua o fez ter ânsia, mas conseguiu devolver para o estômago o que já subia pelo esôfago. Vinho. Nunca se deu bem com vinhos. Por que, então, foi beber?

Cássia, sua colega de trabalho. Sim, havia sido ela a razão. E como recusar uma taça das mãos da mulher mais atraente do Réveillon na casa do dono da empresa? Daí em diante, foi como se só existissem pedaços de memória.

Flávio se lembrava de estarem os dois juntos, mãos dados, sorrisos desinibidos por conta da bebida. Levou a mãos aos lábios, buscou algum vestígio, breve sabor de perfume, o cheio suave daqueles dedos de pianista. Sim, eram longos, delgados. De repente, sentiu algo estranho, como se aquela não fosse sua cama. E não era nem mesmo uma cama.

O que estava fazendo no sofá da sala do Álvaro? Ele se lembrou de que havia se despedido do seu chefe, apesar de não se recordar de ter chegado ao seu apartamento. Forçou a mente, mas só vislumbrou forte enxaqueca. Maldito vinho!

Ouviu vozes. Não as conhecia. Pelo menos nenhuma era do anfitrião. Buscou os sapatos, que estavam virados no tapete. Mau sinal, pensou. Sua mãe sempre dizia que não se brinca com o azar deixando calçados de virados. Tratou de calçá-los e sair o mais rápido possível do local antes que fosse descoberto.

Levantou-se, caminhou até a porta e, ao abri-la, a claridade o cegou por alguns segundos. Caminhou a passos largos em direção ao portão quando, de repente, sentiu que estava sendo observado. Olhou ao redor e, então, avistou um enorme cachorro vindo em sua direção. Desesperado, teve certeza de que o portão estava tão distante, que seria logo alcançado pela fera. Sem muitas alternativas, imaginou que a piscina era sua salvação e tchibum.

O cão rodeou a piscina por duas ou três vezes, até que parou na beira e encarou aquele provável invasor. Começou a latir insistentemente, até que surgiu um dos empregados da mansão.

— Flavius, quieto!

Flavius? Aquele cachorro tinha uma versão italiana do nome do sujeito? Ele imaginou as manchetes dos jornais no dia seguinte: ‘Flavius não perdoa e ataca Flávio’, ‘Quem diria que o pobre Flávio terminou seus dias na bocarra do Flavius’, ‘Flavius devora Flávio’ e, certamente, a pior seria ‘Flávio vira café da manhã do Flavius’.

— Pode sair agora, senhor.

— Muito obrigado! Nem sei o que o meu xará faria comigo.

— Flavius.

— Sim, o Flavius. E eu sou o Flávio.

O rosto do funcionário se manteve inalterado, como se aquela coincidência não fosse do seu interesse. Flávio, apesar de enxarcado, estava são e salvo. Despediu-se do seu herói e entrou no seu carro, que estava estacionado na esquina. A chave do veículo não havia se danificado.

Assim que entrou no seu apartamento, notou o aparelho celular sobre a mesa da sala. Como não gostava de levá-lo quando saía para se divertir, ele não havia se molhado e, consequentemente, se danificado. Tomou-o em suas mãos e notou várias ligações e mensagens de Cássia. Telefonou para a colega.

— Até que enfim, Flávio! O que deu em você ontem?

— Como assim?

— Você está bem?

— Por quê?

— Não vai me dizer que não se lembra de nada?

— Quase nada. A gente se beijou?

— O quê?

— Desculpe. É que pensei…

— Você se esqueceu mesmo?

— Do quê?

— Você me pediu em casamento.

— O quê?

— Não se lembra nem disso?

— Não.

— E que você apagou de tão bêbado?

— Que eu apaguei, sei que apaguei, pois acordei no sofá do Álvaro.

— Ele, o José e o Armando que te colocaram lá. Você apagou no jardim.

— Eita! Que vergonha!

— Ah, esquece! Todo mundo estava bêbado. O Álvaro mesmo ficou bem pior do que você. Até vomitou.

— Sério?

— Sério.

— E você?

— Eu não vomitei, se é isso que quer saber.

— Não.

— E o que é?

— Você aceitou?

— Aceitei o quê?

— O meu pedido de casamento.

— Ah, claro que não! Desde quando acredito em conversa de bêbado, Álvaro?

— Hum…

— Só queria saber como você está. Vê se você se cuida. Até amanhã.

— Até amanhã.

Assim que desligou, Flávio foi até o banheiro, lavou o rosto. Estava péssimo. Ainda tinha o resto do domingo para arranjar coragem para encarar todos no trabalho no dia seguinte. Quanto ao vinho, nunca mais.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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