Notibras

Foi numa noite fria…

Saída da multidão ou do nada, ela se dirigiu a mim. E sem o menor pudor tocou a minha mão. Logo estávamos entrelaçados, completamente envolvidos pelas nossas línguas tão ávidas de desejos.

Procuramos um canto mais escuro, onde quase não poderíamos ser vistos. Ela desceu a minha calça e continuou a exploração pelo meu corpo. Retribuí e senti o gosto inebriante acima de suas coxas.

Não me lembro do seu nome, nem faço ideia de como era o seu rosto, mas ainda guardo na língua o sabor de sua intimidade.

Foi numa noite fria que imaginei tê-la reconhecido. Os cabelos, então mais curtos, destacavam as maçãs proeminentes, que ladeavam o nariz levemente arrebitado e os lábios… Ah, os lábios! Generosamente atrevidos. Ela olhou de relance para mim e, de súbito, apressou o passo. Teria sido por medo ou, pior, por decepção? Covarde que sou, desejei que estivesse enganado, que fosse outra.

Não importa quantas vezes retorno àquela rua, a dúvida ainda me acompanha. Vez ou outra, sinto como se tudo aquilo me pertencesse. Não sei se por ousadia ou soberba. Provável que seja tolice, tão própria dos acometidos por derrotas após fagulha de sorte. Como minha avó dizia: “Alberto, até um relógio quebrado estará certo duas vezes por dia.”

Tenho saído com a Cleide, que conheci por intermédio de um conhecido… Bem, para que mentir, se nem te conheço direito, meu amigo? Foi através de um aplicativo de namoro. Não era o que eu esperava, e creio que ela também teve o mesmo pensamento em relação a mim, graças aos ângulos das fotografias que me tornaram mais atraente, esbelto e, por conta de alguns truques aprendidos, de olhos esverdeados.

Apesar dos estranhamentos iniciais, a solidão nos empurrou para um romance, por menores que fossem as expectativas. E nossos encontros se tornaram hábito, mesmo que não tenhamos sucumbido ao “Eu te amo!”, o que poderia nos ter levado a uma amizade, digamos, colorida. Talvez seja algo do tipo.

Ainda penso na mulher misteriosa. Todavia, cada vez mais, tenho receio de encontrá-la. Não por falta de desejo, mas por descobrir que tudo aquilo não tenha passado de um sonho.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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