Todos vimos, perplexos, o desgaste físico de mamãe, cuja combinação de dores crônicas, fruto de problemas de saúde até então ocultos, além da fragmentação psicológica diante de tantas perdas, parecia lhe pesar muito mais do que seus então 42 anos. Ela tentava disfarçar buscando em algum lugar o sorriso perdido, mas as olheiras, de tão flagrantes, sem resquícios de compaixão, denunciava que o fim estava na próxima esquina, como se à espreita de um ser totalmente entregue.
Honorata Augusta de Louzada Medeiros, à primeira vista, poderia confundi-la com uma mulher de posses. Ledo engano, já que minha mãe nasceu e foi criada nos rincões do município de Luziânia-GO. Somente já adulta, dois filhos na barra da saia e eu na barriga, é que foi ter conhecimento de que a nova capital havia surgido há alguns anos ali perto. O marido, Luciano, passaria o resto da vida convicto de que, para ser homem, bastava manter as calças firmes com embira.
Dona Honorata sabia que, caso esperasse por atitude de Luciano, perigava todos enfrentarem penúrias ainda maiores. Criava galinhas e ficava de olho para ninguém comer os ovos, pois havia aprendido com o pai que um ovo não alimenta ninguém, mas um frango é garantia de refeição para toda a família. A horta era tratada com esmero, de onde tirava o que dava, ajudada por mãos pequeninas dos miúdos, que iam aprendendo antes que a fome os atingisse sem compaixão.
Foi em meados de 1963 que o esposo sumiu de vez. Nunca soubemos se por dívida de jogo, desgosto ou aventura amorosa. Talvez tivesse simplesmente pegado carona e ido tentar a sorte em outro lugar. Nessa época, contando com a pequena Maria Lúcia, éramos nove, até que Júlio nos foi tirado por um casal sem filhos, que disse que ele teria vida melhor em São Paulo. Nunca mais tivemos notícias, e minha mãe, cuja ausência de voz lhe impediu de evitar a retirada do filho, fazia preces para que nosso irmão estivesse bem.
Não sei se foi por causa da perda de Júlio que nossa mãe fez o que deu para manter a família unida. Falhou, como era previsto, já que não conseguiu impedir que quase todos fossem atrás de perspectivas mais atraentes do que permanecer na roça. José e Francisco foram os primeiros a se mudarem para Brasília. Em seguida, fomos Rosa, Maria Lúcia e eu. Apenas Osvaldo permaneceu em Luziânia, já que estava enganchado em namoro com Márcia. Graças a isso, dona Honorata teve quem ficasse ao seu lado enquanto padecia. Ela nos deixou em meados de 1975, logo após ter sido diagnosticada com tumor de mama.
Dos nove filhos, restam apenas três: Osvaldo, Rosa e eu. Talvez ainda sejamos quatro, apesar da falta de notícias. Até hoje, evito comer ovo, e meus netos acham graça. Apenas sorrio e vejo que há memorias que não se apagam.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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