Vinícius era funcionário público aposentado. Ganhava pouco, mas para um divorciado de 64 anos, que morava sozinho, dava pro gasto. E era poeta, já publicara dois livros, insucessos de crítica e de público. Ele não ligava, escrevia basicamente para si mesmo. Quando não estava cometendo poemas, gostava de navegar pelo Facebook. Foi o seu mal.
A nova amiga usava o nome de Acza. Ele achou estranho mas lindo, combinava com a foto de uma mulher jovem e sedutora, de longos cabelos negros. Ela informou que estudava filosofia, ele contou que era poeta.
-Adoro poesia – teclou ela. – É praticamente tudo o que leio. Você tem livros publicados?
– Tenho dois, mas você só vai encontrar em sebos – escreveu Vinícius. – E, de vez em quando, posto poemas no Face.
– Posso te adicionar no zap? Assim você me manda seus poemas, é melhor. E eu mando umas coisinhas…
Vinícius podia sentir um leve tom de malícia e erotismo na mensagem. Digitou o número do celular e esperou. Em menos de dez minutos…
– É Acza. Tô com desejo de ler poesia. Me faz feliz!
Ela já havia selecionado dois de seus melhores poemas e mandou para a moça. Ela respondeu pouco tempo depois
-Adorei. Vou te mandar uns vídeos.
No vídeo, Acza cantava, com um sorriso sedutor, um trechinho de uma canção. Ele estava escrevendo que achou lindo, mas gostaria de ouvir até o fim, quando chegou o segundo. Ela dançava, os seios pequeninos à mostra. Acariciava-os, tocava os cabelos, o rosto, a boca, a barriguinha, contorcia-se toda. Só aparecia a metade superior de seu corpo, mas era uma visão inesquecível.
“Uma sacerdotisa de Afrodite”, pensou o poeta. “Uma dança erótica sagrada, sem um pingo de vulgaridade, a ser assistida com desejo e reverência.”
Nesse dia não houve mais poemas nem vídeos. Vinícius passou horas assistindo-os, gravando cada detalhe em sua mente e sonhando com Acza.
Nos dias seguintes, ele inundou-a de poemas – primeiro de seus livros, depois os mais recentes, postados nas redes. E quase se afogou em vídeos, cada vez mais sensuais porém jamais vulgares. E, deuses, as mensagens tecladas entre um vídeo e outro, entre um poema e outro!
Uma semana depois, esgotado o repertório de poemas, ele passou a escrever exclusivamente para a nova musa. Sucediam-se imagens como “seios comoventes” (Acza adorou) e “sacerdotisa do pecado”. Ela também escrevia. Em algumas postagens, moldava frases inspiradoras de novos poemas, como “Amo a sedução. Como um poema desenhando meu corpo. Meu corpo é arte”. Ou enviava mensagens bem mais diretas: “Ao ler seu poema, eu me toquei”. Isso permitiu a Vinícius fazer o mesmo, liberando uma tensão há muito acumulada – um pequeno favor dos deuses.
Às vezes, ela parecia brincar com ele como um gato brinca com um rato – uma gatinha de 23 anos e um ratão de 64. Ela escreveu certa vez: “Só me relaciono com homens acima de 45”. Foi como se ela colocasse a bola na marca do pênalti e implorasse, “Chuta, faz o gol, nem vou tentar defender”. Mas ele não ousou, só dá pra encarar uma sacerdotisa do pecado quando se tem certeza de um desempenho dionisíaco ou, vá lá, apolíneo.
Vinte dias depois do primeiro contato, Vinícius estava um bagaço. Pensava na moça o tempo todo, escrevia sem parar, mas seus neurônios ameaçavam entrar em greve, sua poesia piorou visivelmente. Então, exigiu/implorou que a moça viesse ao Rio de Janeiro encontrá-lo.
-Mas eu moro em Manaus! – respondeu ela.
-Mando passagem de avião.
Ela enviou o nome completo, o RG e o CPFs, toda a parafernália para emitir a passagem. E então ele esperou.
Quatro dias depois, ela tocou a campainha de seu apartamento. Ele abriu a porta, e engoliu em seco em ver aquela mulher linda, de feições delicadas e olhos luminosos.
-Entre – murmurou com voz rouca.
Ainda sem ousar beijá-la, temia perder a cabeça e ofender aquela deusa da sedução, pediu que sentasse. Mas não aguentou, levantou-se e falou.
-Moça, estou enlouquecendo. Não como, não durmo, só penso em você. Que que eu faço pra ter você em meus braços?
– Faço tudo por 100 reais.
Sem dizer uma palavra, Vinícius foi até a janela e se jogou do 8º andar.
