Genésio nasceu no interior do Paraná, na zona rural de uma pequena cidade. O caçula entre 11 filhos de uma família humilde. Desde muito pequeno, assim como todos os irmãos mais velhos, começou a trabalhar na roça. O tipo de vida e a precariedade do lugar onde moravam inviabilizaram a continuidade dos estudos, obrigando a todos a concluir apenas até o 4º ano primário, o que, comparado à condição dos pais, já representava alguma vantagem, pois estes eram analfabetos.
Moravam em uma casa de empregados na fazenda onde todos trabalhavam, revezando-se no cuidado da lavoura e na criação dos animais. Parte do salário era paga com a cessão do imóvel e com a permissão para retirar da produção a quantidade de alimento necessária para o sustento da família.
Aos domingos, dia do descanso semanal, todos se reuniam para o almoço em torno de uma grande mesa retangular, instalada em um tipo de varanda nos fundos da residência. Os pais ocupavam as pontas da mesa e os filhos, noras e genros, pois havia os casados, se acomodavam nas laterais.
Foi em um desses domingos, durante o almoço, que ocorreu a primeira tragédia em família. Genésio acabara de completar 17 anos. O céu estava carregado de nuvens cinzentas ameaçando uma grande tempestade e no exato momento em que se sentaram para iniciar a refeição e agradeciam a Deus por ela, um raio traspassou o colchão espesso e escuro de nuvens, interrompendo por um instante o aspecto noturno do dia e, numa fração milésima de segundo, atingiu o corpo da mãe, atirando-a ao chão. Antes que o estrondo pudesse chegar aos ouvidos dos comensais, estava morta, fulminada pela descarga elétrica.
Aproximadamente um mês depois, a segunda; um ataque letal do coração arrebatou o pai que vinha em profunda depressão desde o passamento da esposa. Durante o velório uma figura desconhecida foi notada. Uma dama, alta e encorpada, de longos cabelos louros, com seus 50 e poucos anos, de modos refinados e trajando luto, como convinha, chamava a atenção e aguçava a curiosidade de todos não só pelas lágrimas copiosas, como também pela beleza e os modos requintados.
Acompanhou toda a cerimônia fúnebre até o sepultamento, demonstrando durante todo o tempo profunda tristeza, indicando que aquela morte representava para ela uma grande perda.
Terminado o ritual, aproximou-se discretamente de Genésio, que apesar da pouca idade, ostentava o porte de homem feito e beleza rara. Físico musculoso, resultado do trabalho duro na fazenda, pele queimada do sol, cabelos negros, barba serrada, por fazer, e um par de olhos azuis. E confidenciou:
— Conhecia bem seu pai, se é que me entende. Você deve ser Genésio, o caçula, não?
—Sim.
—Ele falava muito dos filhos, evidenciando o carinho que nutria por todos, mas especialmente por você. Meu nome é Madalena e sou proprietária de uma fazenda em um município não muito distante daqui. A cada quinze dias quando ele ia à cidade para comprar ração para os animais ou outros insumos, passava em minha residência e tínhamos momentos inesquecíveis. Eram encontros rápidos, pois ele não podia se demorar, mas intensos.
Genésio, jamais esperaria ouvir tal revelação, pois a relação do pai com os filhos, apesar de mutuamente respeitosa, era um tanto fria e distante. Um outro fator pouco crível era como um homem tão humilde e rude poderia despertar o interesse de uma mulher da elite como aquela, se bem que as coisas do amor não se explicam. Assim, sua reação foi apenas dizer:
— A senhora é uma mulher tão bonita e rica!
— Obrigada! Você também é um belo rapaz e guarda muitas semelhanças com seu pai. E sei que leva uma vida bastante dura e sem grandes perspectivas. Agora vocês estão órfãos e eu sem seu pai, o grande amor da minha vida. Seus irmãos são todos adultos, alguns casados, mas você ainda menor de idade. Por isso quero lhe fazer uma proposta.
—Proposta?
— Sim. E adoraria que você a aceitasse. Ǫuero que vá morar comigo. Assim me faz companhia e supre a ausência de seu pai. Em troca cuido de você e lhe dou uma vida mais confortável, ele, que deve estar em um bom lugar, certamente, também ficará feliz. Além do mais sempre desejei ter um filho, mas não consegui. Poder adotar o filho predileto do homem que amei seria uma linda forma de realizar esse desejo.
Genésio, bastante confuso e assustado com aquela oferta insólita, prometeu pensar no assunto, pois precisaria reavaliar toda sua vida diante de tantas transformações sofridas em tão pouco tempo. Afinal, quanto ao trabalho, ele estava totalmente acostumado e não tinha queixas, mas ainda não tinha tido tempo de refletir em relação a como seria sua vida pessoal dali em diante.
Passados alguns dias, resolveu aceitar o convite da mulher, mas sua ingenuidade não permitiu a ele antever a intenção dela. Porém, passado o susto inicial,
acostumou-se ao comportamento libidinoso de sua tutora. Além do mais, sua vida havia se transformado drasticamente para melhor. Não tinha mais que trabalhar, tampouco se preocupar com nada. Ela, mesmo lhe provendo todas as necessidades materiais, ainda lhe fornecia uma poupuda mesada, a qual não gastava, pois sua vida se resumia a acompanhar Madalena, estivesse ela em sua casa, passeando, ou mesmo quando viajava; tudo por conta dela.
Genésio, entretanto, foi se enfastiando com o passar dos dias e das noites em que invariavelmente se via obrigado a se deitar com ela. Tal rotina o levava a colocar na balança os prós e contras daquele tipo de vida. Não lhe faltava nada, é verdade, e a mulher o tratava com carinho, devoção e respeito, mas ele tinha suas ambições, ainda que não parecesse, era um espírito aventureiro.
De tanto cismar, um belo dia, saiu para comprar cigarros e não voltou mais. Mas não o fez de modo impensado, ao contrário, sem que a companheira pudesse suspeitar, foi ao banco e retirou uma importância em dinheiro, não muito, pois, como não levou bagagem não tinha como carregar de forma segura, mas o suficiente para algumas pequenas despesas, inclusive comprar uma passagem de ônibus para Curitiba, poder se hospedar e se alimentar por lá.
Mas sua real intenção era dar voos mais altos, por isso, a primeira providência ao chegar à capital paranaense foi obter um passaporte. Com o documento em mãos, comprou uma passagem aérea para Lisboa, onde teria melhores condições de se comunicar, pois, evidentemente, não dominava nenhuma língua estrangeira.
Apesar disso, após se familiarizar minimamente com a vida no além-mar, partiu para aquela que seria a grande façanha com a qual sempre sonhara, mas não tinha grande expectativa em realizar; isso só foi possível graças a ter conquistado o coração de Madalena e ela ter aberto os cofres para ele.
O tal sonho era percorrer toda a Europa viajando de trem; e assim, armado de toda sua intrepidez, saiu de Lisboa para Madri, de Madri para Paris, depois Londres, Berlim, Roma tec., comunicando-se como dava. Depois de percorrer milhares de quilômetros e conhecer mais de 20 capitais e outras cidades importantes, quando estava embarcando na estação de Zurique para cruzar a Alemanha com destino a Amsterdã – quem diria? justamente em Zurique –, ao entrar no comboio, Genésio percebeu desesperado que sua carteira, com todo o dinheiro restante, havia sido furtada.
Seu plano original, pois suas economias estavam se esgotando, era, como último destino, a capital holandesa, para depois retornar a Portugal e pegar o voo de volta a São Paulo, mas o desafortunado acontecimento o obrigaria a rever seu intuito, embora não tivesse a menor ideia de como contornar essa enrascada. Genésio, então, completamente desalentado, sentou-se no primeiro banco desocupado pela frente, se esforçando para retomar o controle e conseguir raciocinar, não imaginava, no entanto, o desígnio do destino.
Não demorou muito para que uma senhora, muito bonita, loura, alta e encorpada dos seus 50 e poucos anos, surgisse à sua frente falando de forma frenética em um idioma que lhe parecia alemão e Genésio não conseguia se entender com ela. Foi quando, já chorando, disse aos gritos:
— Não entendo a merda da sua língua, porra!
Na mesma hora, a mulher mudou seu tom e falou:
— Você fala português? É brasileiro?
— Sim, sim!!!!!!
— Meu nome é Gertrudes e também sou brasileira, moro em Amsterdã há quase 10 anos e estou voltando para casa. Estava apenas tentando lhe dizer que está ocupando meu assento. Mas me parece estar angustiado, conte-me o que aconteceu.
Mais calmo, pois agora tinha pelo menos com quem desabafar, pedindo desculpas, contou sua história. Gertrudes, admirando sua coragem, propôs a ele se hospedar em sua casa até conseguir se reorganizar para retornar ao Brasil. Genésio, incrédulo, pois desde criança ouvia de seu pai a máxima de que o raio, tal qual aquele que fulminara sua mãe durante o almoço de domingo há cinco anos, não cai duas vezes no mesmo lugar; desta vez muito menos ingênuo e sem opção de se recusar, aceitou a proposta de pronto.
Tinha a impressão de que toda a história vivida com Madalena, se repetia. E se repetia mesmo, desde o tratamento recebido, como se fosse um príncipe, passando pelas noites “calientes” até as mesadas polpudas. Vai daí que, Genésio passou uma bela temporada com a nova mantenedora. Até que um dia, cansado da rotina, pegou suas economias, e com a roupa do corpo, saiu para comprar cigarros e nunca mais retornou para Gertrudes.
Voltou para o Brasil. Dessa vez se radicou em São Paulo e, mais uma vez, refletindo sobre todos os acontecimentos de sua vida, resolveu investir em si e se tornar uma pessoa madura e emancipada. Arrumou um emprego, sem exigência de muitas qualificações, pois não as tinha, matriculou-se no EJA, completou o ensino fundamental e depois o médio, já lhe permitindo um emprego melhor; estudou inglês e computação, conseguindo assim galgar mais alguns degraus na escala profissional e entrou na universidade.
E foi exatamente na universidade, ao conhecer o mestre de Física Geral, o professor doutor Gervásio da Silveira Magalhães, simpatizou-se muito com ele. E para a felicidade de ambos, a afinidade foi mútua. Aproximaram-se cada vez mais e saíam frequentemente para tomar um chopinho e esticar a noite. Ao final do primeiro ano, estavam namorando. Mais algum tempo selaram a relação no cartório e foram morar juntos.
Genésio se formou, obteve mestrado e atualmente está em fase de conclusão de sua tese de doutorado, a ser submetida à banca examinadora em março do próximo ano. A relação entre eles completou recentemente 9 anos e Genésio não se sente entediado, jamais, ao contrário, sempre muito estimulado pelo companheiro.
Ah! Ǫuase ia me esquecendo: Genésio parou de fumar.
