É um tanto perturbador quando a prática desmente o discurso, mesmo quando parece óbvio que se trata apenas de um discurso demagógico. Nesta semana, vieram à tona prints e áudios do deputado estadual Guto Zacarias, de São Paulo, tentando convencer a então namorada a realizar um aborto. Nada disso seria apenas mais um episódio da vida privada, não fosse o fato de o parlamentar construir sua trajetória política justamente em cima de pautas conservadoras e da defesa intransigente contra o aborto. A contradição é o centro da questão.
O caso ganha contornos ainda mais graves quando se observa que a ex-namorada registrou ocorrência por violência psicológica e que, segundo prints de conversas entre os dois, o deputado teria se recusado a registrar a própria filha mesmo após 20 dias do nascimento. Além da incoerência ideológica, há um padrão de comportamento que escancara a distância entre o que se prega em público e o que se pratica no privado. A política, nesse cenário, deixa de ser espaço de convicções e passa a ser ferramenta de conveniência.
Diante da repercussão, Guto Zacarias tentou se explicar, alegando que cogitou o aborto em um momento de “confusão”. A justificativa soa frágil e não convence. O eleitor já não é tão ingênuo quanto alguns imaginam. Cada vez mais, fica evidente que certos discursos moralistas não passam de estratégia calculada para angariar apoio de um público específico. Não é sobre valores, é sobre votos. E, quando a máscara cai, o que resta é a velha política travestida de virtude.
