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Há Guerras Que Nós Escolhemos Não Lutar

Há guerras que nós simplesmente não lutamos mais. Não por covardia, não por fraqueza, tampouco por desistência da vida. Nós deixamos algumas batalhas porque aprendemos, a duras penas, que nem toda guerra merece o nosso corpo, o nosso tempo ou a nossa sanidade.

Durante muito tempo nos ensinaram que resistir é insistir. Que ser forte é permanecer. Que vencer é aguentar até o fim. Mas ninguém nos contou que há conflitos que se alimentam exatamente da nossa permanência. Guerras que só existem enquanto nós aceitamos estar nelas.

Walter Benjamin já alertava que a ideia de progresso muitas vezes caminha sobre escombros. Nós crescemos acreditando que suportar tudo era sinal de maturidade, quando, na verdade, era apenas uma forma sofisticada de adoecer. Aprendemos tarde que há disputas que não se resolvem com mais esforço, mas com retirada estratégica.

Nós não lutamos mais guerras onde precisamos provar o nosso valor o tempo inteiro. Não lutamos batalhas onde o amor precisa ser convencido, onde o respeito precisa ser implorado, onde a dignidade depende da paciência infinita de quem sempre cede. bell hooks nos lembra que o amor não é sofrimento romantizado; o amor é prática ética. Onde isso não existe, não há guerra justa há exploração emocional.

Há guerras que abandonamos porque entendemos que elas não eram nossas. Conflitos herdados, expectativas alheias, culpas plantadas em nós como se fossem naturais. Simone de Beauvoir já dizia: não se nasce mulher, torna-se. E nesse tornar-se, muitas de nós fomos treinadas para lutar por tudo, menos por nós mesmas.

Nós paramos de lutar quando percebemos que o custo era alto demais. Quando o corpo começou a falar o que a mente insistia em negar. Quando a ansiedade, o cansaço e o adoecimento se tornaram linguagem. Byung-Chul Han chama isso de sociedade do desempenho: somos levadas a acreditar que falhar é imperdoável, mesmo quando o sistema inteiro é violento.

Há guerras que nós não lutamos mais porque aprendemos a diferença entre resistência e autossabotagem. Resistir é escolher o que vale a pena. Autossabotagem é permanecer onde só há desgaste. Não sair também é uma escolha e, muitas vezes, a mais cruel.

Nós não lutamos mais guerras que nos transformam em versões menores de nós mesmas. Não aceitamos mais trincheiras onde precisamos silenciar para caber, nos diminuir para permanecer, nos justificar para existir. Judith Butler nos ensina que toda vida que precisa se explicar o tempo inteiro já foi marcada como descartável.

E talvez essa seja a maior virada: entender que ir embora também é um gesto político. Que dizer “não” é uma forma de cuidado radical. Que preservar-se é uma ética. Audre Lorde já escreveu que cuidar de si não é autoindulgência, é autopreservação e isso é um ato de resistência.

Há guerras que nós deixamos porque queremos viver. E viver, neste mundo, já é uma forma de luta suficiente.

Se este texto encontrar alguém cansada, alguém no limite, alguém que sente culpa por não conseguir lutar mais: nós queremos dizer que está tudo bem escolher a paz. Não é derrota. É maturidade. É sobrevivência. É amor-próprio aprendido no campo mais difícil de todos: a própria vida.

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