Acordou cedo. Acordou cedo e tinha-se deitado tarde na véspera. Era uma roda viva a sua vida na roda correndo como um hamster desesperadamente a girar a roda de plástico para fugir de estar parado no tédio da gaiola da cidade engaiolada.
Não queria saber.
Vestiu-se e desceu as escadas como se tivesse pressa de não ter pressa. Assim era a vida, um sucessivo filme sem saída e ele, um actor principal, era só mais um figurante aos olhos do grande realizador que por agora era aquele sol matinal, radioso e pleno, nunca igual sendo sempre o mesmo, raiando no fulgor do Agosto como um leão mudo observando tudo.
Atravessou várias ruas até chegar ao ginásio. Àquela hora as pessoas ainda dormiam presas nas suas camas de matéria física e viviam brincando livres nos seus sonhos atirando almofadas umas às outras e rindo-se às gargalhadas com as penas soltas que voavam das suas pueris lutas.
Ele ria-se sozinho como quem entra numa névoa de sonho bem acordado dando passos seguros inseguro no pavimento de cimento. Ninguém se cruzou com ele. Em redor um silêncio de aurora imaculada sem automóveis ainda nas estradas. Ainda bem, pensou ele, daqui a pouco viriam todos enxamear de stress, alcatrão e fumo aquele doce sossego de orvalho ainda a brilhar e afugentar o que restava da calada da madrugada e da sua névoa de silêncio restaurador. Toda a gente ainda dormia naquela cidade do sono anestesiados num doce torpor de ainda haver alguns minutos antes de os despertadores soarem.
Entrou no ginásio. A porta de entrada era alta e verde e haviam heras a descerem como cascatas de clorofila. Havia uma sensação a néon olímpico e a plantas artificiais ali, como se o cliente fosse acima de tudo um suador pagador orgulhoso do seu esbelto físico visto através dos sucessivos espelhos que percorriam todo o interior do ginásio.
Entrou feliz porque tinha de o ser e sorriu à recepcionista que madrugara por detrás dos seus óculos envidraçados embaciados pelo suor laboral e pelas horas em frente ao ecrã do computador. Olá, bom dia! Olá, bom dia!
Era o primeiro cliente a entrar.
Entrou no balneário masculino por entre os espelhos, as plantas artificiais e a música espartana que rodava e rodava nos dias e nos temas sempre iguais daquele ginásio situado numa enorme cave algures na cidade, oculta do sol, envolta em cimento e a gritar por todos os poros por alguma liberdade, liberdade, liberdade, repetia o refrão da música espartana que rodava e rodava por entre as plantas artificiais, os espelhos iguais e o odor a lixivia.
Vestiu-se a rigor como um verdadeiro sportsman do século trinta, olhou-se como um ídolo ao espelho do lavatório, estaria irreconhecível dali a alguns anos nas fotos das reuniões de família, nas fotos das festas com os colegas de trabalho, nas fotos que tirava a si mesmo para enviar a si mesmo no telemóvel, na internet, no espaço cósmico. Estaria irreconhecível dali a alguns anos quando olhasse verdadeiramente para si.
E pensou se algum dia, com o rápido rodar dos dias e das noites na roda giratória de hamster citadino que era, se algum dia lá para diante ainda teria a memória de ter passado aquela manhã, aquela juventude radiante de verdadeiro sportsman do século trinta, como um verdadeiro momento de glória triunfante onde sozinho, de madrugada ainda, viera correr na passadeira rolante para ficar igual a um semideus na terra dos demasiado humanos.
Ligou a máquina colocando o dedo no botão vermelho e a passadeira rolante começou a deslizar pesadamente entrando numa cantilena monótona. Com passos apressados acompanhou o ritmo da máquina e iniciou a sua corrida para lado nenhum.
O tempo passava escorrendo bagos de suor. Bebia por uma garrafa de água mineral engarrafada com água da torneira com uma sede de vício, correr, correr, pensava, é o delírio de quem não tem parança nesta dança entre a inércia e o esforço. A água era o reforço positivo do seu trabalho imparável de se mexer para correr indo a lugar nenhum, ficando no mesmo sítio equilibrando-se na passadeira, vendo a vida e a morte a passarem nas televisões distraidamente misturando anúncios publicitários e cultos de personalidade.
Continuou a correr.
Uma cliente desce as escadas e passa perto dele emanando um odor a fábrica e a água de rosas. Chamar-se-ia Nivea, pela fisionomia e olhos azuis, loiríssima, passa perto dele e dirige-se ao balneário feminino envolta numa aura de frescura matinal com o saco e o sexo às costas.
Continuou a correr.
Olhou-se vagamente ao espelho. Estava como estava. Como se via a si mesmo por dentro assim o era no reflexo daquela imagem de si, correndo sempre no mesmo sítio, suando para alcançar o seu objectivo que seria estar no mesmo sítio mas mais cansado, satisfeito porque suara e desgastara o stress mau e o colesterol mau sentindo-se um semideus, um sportsman do século trinta.
Sete e meia e tinha cinco euros no bolso, em que gastaria o resto do dia? Havia que correr e fazer coisas, tarefas, facturas, impressoras e máquinas silenciosas a trabalhar. O patrão era uma impersonalidade em pessoa, solícito e anónimo entre o enxame do escritório na hora de ponta, papeis a voar, suores frios, apaguem a luz que está a gastar, dizia antes de se ir embora, exactamente às nove da noite, muitas vezes sem jantar. Coitado. A responsabilidade era tanta que às vezes tinha de despedir estagiários, exactamente às nove da noite, muitas vezes eles ficavam sem jantar, muitos dias. Isso não há-de acontecer a mim.
Continuou a correr.
Um cliente desce as escadas, gordo e desajeitado por si mesmo e pelos critérios estéticos com que a sociedade marca um gordo e um desajeitado por si mesmo colocando-o a correr e a libertar-se pelo trabalho férreo em se regenerar tornando-se magro. Magro. Magro. Parecia ouvi-lo pensar enquanto corria exorbitantemente suado na passadeira rolante. Bebe um pouco de água e deixa-a correr na cara um pouco para se regenerar do contacto desagradável que teve com um ser gordo e desajeitado por si mesmo. Magro. Magro. Eu sou… Imbatível! E passa a mão no cabelo.
Continuou a correr.
Enquanto corre vai olhando de soslaio a televisão que permanece muda emitindo apenas brilhos e imagens choque para deleitar. Sete e quarenta e cinco. Que seca! Isto nunca mais acaba. Ainda tenho de… E de… Não me posso esquecer de… Ah, e amanhã… A música que rolava e rolava agora estava extática, futurista, xamânica até. Não sabia o que era aquilo. Estava tonto. Cansado, tonto, confuso, correndo no mesmo sítio, com o objectivo de chegar ao fim, quando chegasse ao fim, para ficar ainda mais cansado, tonto, confuso, correndo para o automóvel, correndo para o escritório, correndo para acabar o trabalho com objectivos, correndo com o objectivo de chegar ao fim, cansado, tonto, confuso, para correr para dormir e já não sonhar rindo e atirando almofadas às amigas nos sonhos rindo-se às gargalhadas com as penas soltas que voavam das suas pueris lutas como fazia antes de trabalhar quando namorava Nívea, ou seria a loira daquele concerto dos Bezerros de Oiro lá no estádio da loucura enxameante onde já não via nada, ape
nas rodava e rodava a cabeça ao som da música que rodava e rodava e já não sabia nada…
Oito horas. Na televisão silenciosa um hamster corre e corre desesperado na roda de plástico. Continuou a correr. Oito horas. O símbolo do número oito como que duas serpentes enroscando-se em fogo. Estou em febre. Sinto-me a ferver. Estou estranho. Quem me sou? O olhar? Apenas o que vejo? Apenas o que sinto? Continuou a correr. Oito e cinco.
Uma cliente desce as escadas e passa por ele imersa num vapor de tudo arrumado na cozinha, o puto a dormir, o gajo a trocar-me por aquela, e se fosse só aquela, porque é que tatuei o nome dele no braço, logo o direito… E passa por ele imersa num vapor, rápida e desembaraçada na louça e na máquina de cortar a relva, a patroa era boa pessoa, paga bem, e lá vai dirigindo-se para o balneário feminino envolta em parfum.
A empregada da limpeza do balneário desce as escadas de balde na mão e espanador ao alto com uma mensagem de paz e de libertação: Bom dia! Bom dia, disse ele correndo tanto que já mal ouvia a sua própria voz abafada na música trance às voltas e às voltas com o refrão repetitivamente repetitivo: Work hard, Work hard, Work hard… Até à exaustão orgiástica de… Oito e dez e tinha cinco euros no bolso. Exactamente para gastar. Exactamente para gastar quando saísse dali e fosse ao café da esquina. Já imaginava. Um café por favor, curto. Ah e o sabor da cafeína a entrar-lhe em todos os poros do seu ser… Ah, para sempre sorver o prazer, morrer de gozo… E a música trance às voltas e às voltas com o refrão neoliberal anticapital ou pior do que isso porque ainda havia pessoas que não sabiam inglês e não sabiam o que era isso de neoliberal e anticapital mas eram essas mesmas pessoas que tinham de ouvir o que estava dizer aquela diva do demónio gritando até à exaustão orgiástica: Work hard, Work hard, Work hard…
Merda. Estou lúcido. Talvez demais… Olha em redor o ginásio dos espelhos e das televisões e começa a ter visões lúcidas de febre transe xamânico. Paz na terra e boa vontade entre os homens, pareceu ver escrito na tabela de preços do ginásio bem mesmo à sua frente. Já não via bem, confundia tudo. Na televisão em silêncio o hamster era arrastado pela roda que girava e girava acelerando.
Oito e meia. Na cidade lá fora movem-se pelas suas veias e artérias as pessoas e os automóveis numa adrenalina de ir para o trabalho urgentemente para resolver problemas locais, urgentemente para resolver problemas regionais, urgentemente para resolver problemas nacionais urgentemente, urgentemente para resolver problemas internacionais urgentemente, depois do café da manhã, ouvindo passar a ambulância indo urgentemente para as urgências soando urgentemente as sirenes da loucura, enquanto se ouvem as notícias nos auto-rádios fashion confortavelmente instaladas nos seus automóveis, as pessoas estão com uma pressa sem cura, procurando resolutamente o dinheiro pois só ele cura os problemas pessoais urgentes que se têm de se resolver urgentemente.
Notícias na televisão silenciosa. As imagens eram mais impressivas que as palavras. Refugiados em todo o lado, fugindo e sem ter sítio para repousar a cabeça, como Jesus um dia, como ele naquele dia, como todos naquele dia naquele ginásio agora cheio de gente que pulula e bombeia o coração e a salta na música que ribomba, e ninguém tem sítio para repousar a cabeça, apenas para a perder numa insónia maníaca de viver e de ter de viver, de sofrer e de ter prazer.
Fim das notícias na televisão silenciosa. As imagens eram repetitivas e as palavras que saiam das bocas lisonjeadoras dos comentadores com opinião também. Ainda bem que a televisão estava silenciosa. Torna-se perigosa quando lhe damos atenção demais, começa a falar alto e a ter razão como um pai ou um patrão quando se zangam, quando é assim muda-se de canal, e de canal em canal, entramos no absurdo banal de ter tanto para ver e nenhum tempo para ver, apenas tomamos café e vemos os índices das bolsas subir enquanto a tensão sobe, enquanto ele corre na sua passadeira rolante, vibrante de endorfinas e de seratoninas ao rubro, eis o herói, quase no fim da corrida, vislumbra o futuro, toda a gente saberá de tudo e de todos mas ninguém saberá de si.
A televisão silenciosa mostra o hamster esgotado, a roda de plástico quebrada e a gaiola aberta. Nívea, vestida de branco, pega no hamster, retira-o da gaiola e beija-o no nariz.
Oito e quarenta e cinco. Ele desliga o botão vermelho do tapete rolante. O tapete rolante para finalmente. Ele escorre bagos de suor e transe líquido.
Nívea passa por ele e sobe as escadas vestida de noiva. Dirige-se para a saída.
Ele lembra-se de quando viviam brincando livres nos seus sonhos do passado atirando almofadas um ao outro e rindo-se às gargalhadas com as penas soltas que voavam das suas pueris lutas.
Subitamente de guerreiro herói xamã ele transforma-se num hamster amestrado pronto para correr.
Coloca o cartão no ponto ao entrar no escritório.
Depois do café e de olhar todos os hamsters do escritório a correr, diz solenemente uma frase que ouviu dizer:
Hoje está um bom dia para morrer!
