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Ibaneis, a ordem é ensinar a queimar dinheiro público?

Senhora Secretária da Educação e Nobres Aspones,

Escrevo esta carta não como primo, tio ou sobrinho de Pedro Seabra — a árvore genealógica que vos preocupa pouco importa — mas como alguém atônito diante do teatro dos absurdos que vossas excelências encenam. Pois não é que resolveram abrir inquérito contra um diretor de escola por ter cometido a ousadia de… economizar? Imagino que, no vosso manual, isso esteja ao lado de heresias como “pensar por conta própria” ou “trabalhar sem pedir bênção ao aplicativo oficial”.

Pedro, ao que parece, violou o dogma sagrado da Secretaria, segundo o qual todo gasto deve passar pelo santo aplicativo, essa caixa-preta que transforma preços comuns em milagres inflacionados. Ao procurar no mercado valores mais baixos, cometeu o imperdoável pecado da racionalidade. Talvez esperassem que ele comprasse um apagador a preço de computador, mas, em vez disso, trouxe ao erário a indesejável economia. Que ousadia!

É curioso e de difícil compreensão o modelo imposto pela secretaria, que fala tanto em formar cidadãos conscientes, mas quando encontram um diretor que pratica a consciência na administração, preferem tratá-lo como herege. Não bastasse a idoneidade do rapaz — filho de um dos raros doutores em Geografia e Meio Ambiente que este país conhece —, ainda por cima dá aula de ética pública. Só que, no palco montado por vossas excelências, ética virou personagem secundária, sempre cortada da peça na primeira revisão de roteiro.

E quanto ao governador Ibaneis Rocha, homem que sempre tive por probo, espanta-me o papel de figurante. Não seria o caso de interromper a farsa e mandar encerrar o espetáculo antes que a plateia perceba que a trama é grotesca? Porque, convenhamos, punir quem defende o dinheiro público é como mandar calar o bombeiro que apaga incêndio. Gestos assim podem até arrancar aplausos dos incendiários, mas destroem a confiança da cidade.

Assim, senhores, a lição que a Secretaria passa aos estudantes não é de geografia nem de literatura, mas de realismo fantástico. A imagem que se transmite é a de que no Distrito Federal, economizar é crime, desperdiçar é dever, e a burrice administrativa virou currículo obrigatório.

Atenciosamente,
José Seabra
um parente não suspeito — mas muito, muito desconfiado.

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José Seabra, diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras, está de passagem por Brasília.

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