Invento e escrevo compulsivamente. E pesquiso tudo o que posso nas redes sociais. A Internet é um labirinto. Selecionando, garimpando, a gente encontra verdadeiras joias. Há uns anos criei uma coluna chamada “Deu no poste e na Internet…”.
IDEOLOGIA DE GÊNERO
*Este recorte explica muito sobre posição política e tudo sobre incapacidade de leitura, interpretação e pensamento crítico de milhões de internautas.
O que o professor disse foi simples e tecnicamente correto.
Ao afirmar que ensina gênero nas aulas de gramática, interpretação, literatura e redação, ele se refere ao conceito linguístico de gênero, algo elementar no ensino da língua portuguesa.
Gênero, nesse contexto, diz respeito às categorias gramaticais, aos gêneros textuais e aos gêneros literários, conteúdos presentes nos livros didáticos há décadas e exigidos em provas, vestibulares e concursos. Não há ali qualquer menção a ideologia, identidade de gênero ou doutrinação.
O espanto não está no que foi escrito pelo professor, mas na reação de parte dos comentaristas. A palavra “gênero” foi arrancada do seu campo semântico original e jogada num campo político-moral, onde passou a significar algo que o texto nunca disse. Não houve leitura atenta, apenas reação a um termo que virou gatilho emocional. O texto foi ignorado; o rótulo, “moralmente combatido”.
Esse tipo de resposta revela mais sobre quem comenta do que sobre quem escreveu. É a interpretação substituída pela projeção. A pessoa não pergunta “em que sentido?”, não busca o contexto, não analisa a frase inteira. Ela apenas reage. E reage com raiva, ironia e acusações que não dialogam com a realidade do que foi dito.
Não me espanta que pessoas admirem um cara que ataca professores e que bradava ao vento que livros são um amontoado de coisas escritas. Pois essas pessoas que não sabem interpretar algo simples conseguem se enxergar num boçal raivoso. A identificação não é intelectual; é emocional. Elas não defendem ideias, defendem ressentimentos sem base.
O paradoxo é que muitos desses comentários acabam confirmando, sem perceber, a necessidade do trabalho do professor. Falta leitura, falta interpretação e falta a habilidade básica de distinguir sentidos de uma mesma palavra conforme o contexto. Entender isso é justamente o objetivo das aulas que ele mencionou; aquelas que alguns atacam, mas claramente precisariam frequentar.
Falta amor, sobra ódio, mas falta também interpretação de texto.
É hora de transformar.
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*Coluna “Deu no poste e na Internet…”, do jornalista Gilberto Motta, escritor, jornalista, professor/pesquisador de pérolas na Serra Pelada da Internet. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.
