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Independência ou (quase) morte

Desde muito cedo, quando a face conhecia nada mais do que penugem, Alex desejava ser dono do seu próprio espaço, sem que precisasse dar explicações sobre o que fazia e a hora que deseja retornar. A rua era seu mundo, tolhido por sua mãe, que não admitia ser contrariada.

— Alex, vou te falar pela última vez! Minha casa, minhas regras!

— Mas, mãe…

— Comigo não, violão! Se quer bagunça, que arrume seu canto, que já estou cansada de limpar bunda de marmanjo.

Como é que é? Tudo bem que Alex, apesar de trabalhar, não conseguia se sustentar, ainda mais porque seus gastos, obviamente por conta do turbilhão de hormônios, estavam comprometidos com, digamos, algo mais urgente. No entanto, a genitora poderia ser mais complacente, não precisava esfregar tantas verdades na cara do rapazola de, apenas, 34 anos.

Aconteceu num agosto, quando dona Janice, a durona que havia parido Alex, recebeu a triste notícia do falecimento de uma parenta querida, tia Altamira. Além dos laços sanguíneos, a mulher possuía forte vínculo espiritual, já que a falecida também era sua madrinha. Não tinha como abandonar tantas lembranças.

Diante de tamanha proximidade, lá foi dona Janice prestar as últimas homenagens à defunta, cuja morada eterna seria ocupada no dia seguinte lá no Cemitério São Vicente de Paula, em Unaí-MG. Todavia, antes de sair do apartamento na Asa Norte, em Brasília, ela fez questão de jogar um pouco de responsabilidade sobre o colo do filho.

— Olha aqui, Alex, não sei quando volto, pois minhas primas vão precisar de suporte emocional. Então, trate de manter tudo arrumado, que não sou sua empregada!

Não que o sujeito não tivesse sentimentos, mas o luto não se instalou em seu íntimo. Ele conhecia tia Altamira e, talvez por isso mesmo, sabia que a velha já estava fazendo hora extra entre os vivos. Que São Pedro a recebesse de bom grado, já que a idosa sempre soube rezar o terço com devoção. Por outo lado, pensou, pelos menos por alguns dias, ele seria o dono daquele ambiente, sempre dominado por mãos de ferro da matriarca!”

Os três primeiros dias foram de esbórnia total. É verdade que Alex precisava trabalhar, mas, assim que abria a porta de casa, pegava uma lata de cerveja na geladeira e ia se refestelar no sofá, sem se preocupar em tirar os sapatos. Ah, se dona Janice o visse daquele jeito! Era bronca na certa, com risco de lhe sobrar alguns bons tabefes também.

Quando chegou sexta-feira, Alex já havia se acostumado com o reinado, por mais breve que fosse. Deitado no sofá, controle remoto na mão, mudava de canal na ampla televisão. E, por mais que procurasse, parecia entediado, quando o telefone tocou. Era Rogério, seu amigo de farras.

— Alex, arrumei duas gatinhas pra gente sair hoje.

— Opa, que coisa boa! Vou tomar aquele banho caprichado e passar o perfume importado da minha mãe.

Quando chegou a hora, Alex, diante do espelho do banheiro, se olhou pela última vez. Caminhou que nem pavão para a porta e, do nada, recebeu uma mensagem no celular. Era dona Janice, que dizia estar a caminho. Um frio na barriga, o homem se lembrou das palavras intimidadoras da mãe: “Então, trate de manter tudo arrumado, que não sou sua empregada!”

Desesperado, correu todo o apartamento à procura de qualquer deslize. Além de não ter jogado o lixo fora, tomou aquele susto ao perceber a enorme quantidade de louça suja sobre a pia. Entre o amigo e as tais gatinhas e a fúria da coroa, não teve dúvida.

— É, Rogério, não vai dar. Fica pra próxima.

— Ué, por quê?

— Esqueci de lavar a louça desde que minha mãe foi pra Unaí.

— Caramba!

— Pois é, meu amigo, morar sozinho tem dessas coisas.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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