Notibras

Injúrias graves viram algo quase indolor e até mesmo carinhoso

Gosto de palavras, impossível escrever sem brincar com elas. Curto em especial, acompanhar sua incorporação à língua, enriquecendo-a e transformando-a. Acho fascinante ver como algumas criam raízes, enquanto outras têm vida curta e logo se vão. Tipo bocomoco, lembram (sabem) o que é?

No meu universo de vocábulos, um lugar especial cabe às expressões populares e, entre elas, às gírias, ofensas e palavrões. Por vezes, injúrias graves viram algo quase indolor e até mesmo carinhoso. O mecanismo de diminutivos da língua portuguesa dá conta do recado. Um exemplo, coitado, que, segundo alguns, vem de coito, relação sexual, virou coitadinho e tadinho. Outro exemplo não injurioso: uma palavra de origem religiosa,

Adeus, transformou-se em adeusinho, pequena divindade da linha dos erês da umbanda e vá lá, forçando um pouco a barra, do Menino Jesus, mas nunca do Jeová de barbas brancas. E por aí vai.

Por vezes, nomes feios perdem o sentido original, embora continuem ofensivos. Nunca ouvi alguém dizer de outra pessoa: “Ele é um pepeca”, mas ouvi mil vezes “Ele é um babaca”. No entanto, os dois termos se aplicam à coisa das mulheres. Não sei como nem por que “babaca” perdeu sua conotação original pra se tornar o sinônimo mais ofensivo de bobalhão. Só sei que foi assim.

Pensei nessas coisas enquanto escrevia meu conto Flaporco (postado aqui, pesquisem e releiam). Imaginei a tigrada carioca e paulista, com o vocabulário enriquecido pelas ofensas trocadas entre os místeres, se enfrentando nas quebradas, com direito a pleonasmo e tudo:

– Perdeu, playboy, você é um corno cabrão!

– E você, um cheché babacão!

E assim cheché, que na gajolândia significa senil, gagá, periga se transformar por aqui numa ofensa gravíssima, dessas que só se lavam com sangue.
Mas não é preciso recorrer a ofensas lusas divulgadas em contos. Um excelente exemplo de enriquecimento da linguagem pela incorporação/transformação de ofensas ocorreu com as filhas de uma amiga. As ferinhas tinham tipo 8 e 9 anos e estavam brincando de brigar, como irmãs e irmãos fazem, e exibindo seu vocabulário recém-enriquecido com palavrões.

– Você é puta!

-E você é quipariu!

Gente, em mais de 600 textos, criei apenas três personagens putas, nos contos A sacerdotisa, A sereia e Amigas (postados aqui, pesquisem e releiam). Mas escrevi sobre porradas de mulheres queparius, donas de seu próprio nariz (e de outras partes de seus corpícios). Praticamente todas as minhas amigas de carne, osso e gordurinhas são queparius. Que os deuses as conservem, pois tornam a vida dos babacas e babacões muito mais gostosa e divertida.

……………………………..

*https://www.notibras.com/site/cadu-matos-flamenguista-que-e-nao-perde-a-chance-de-provocar-o-porco/

Sair da versão mobile