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Interrogatório de réus marca 3º dia de júri

O Tribunal do Júri de Planaltina vive nesta quarta-feira um de seus momentos mais decisivos. O julgamento da maior chacina da história do Distrito Federal chega ao seu terceiro dia com uma etapa aguardada por familiares e autoridades: o interrogatório dos cinco acusados de exterminar dez pessoas de uma mesma família.

No banco dos réus estão Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva. Eles respondem por uma série de crimes hediondos cometidos entre o fim de 2022 e o início de 2023, que chocaram a capital federal pela crueldade.

A expectativa para hoje é que os réus apresentem suas versões sobre os fatos que levaram à morte de dez pessoas. Até o momento, o conselho de sentença ouviu relatos de testemunhas e investigadores, que traçaram um panorama detalhado de como a organização criminosa teria agido para aniquilar as vítimas.

O processo é complexo e envolve uma trama de ganância e violência extrema. Segundo as investigações da Polícia Civil, o grupo planejou as mortes para se apossar de uma chácara avaliada em R$ 2 milhões, localizada no Paranoá, além de valores em dinheiro que as vítimas possuíam.

Nos dois primeiros dias de sessão, o plenário foi tomado por depoimentos densos. Na segunda-feira, seis testemunhas de acusação e defesa foram ouvidas pelos jurados, trazendo os primeiros contornos sobre o desaparecimento da cabeleireira Elizamar da Silva e de seus três filhos pequenos.

Já na terça-feira, o ritmo dos trabalhos se intensificou com a oitiva de 12 testemunhas e do delegado Ricardo Viana. O investigador detalhou a cronologia dos crimes, explicando como cada membro da família foi atraído para a emboscada que resultou na tragédia familiar.

A investigação aponta que a disputa pela terra, que já era alvo de brigas judiciais, foi o estopim para a barbárie. O terreno de 5,2 hectares era o lar de algumas das vítimas e tornou-se o alvo principal da cobiça dos acusados, que conviviam com a família antes dos assassinatos.

O caso começou a ganhar contornos públicos em 12 de janeiro de 2023, quando Elizamar desapareceu com seus filhos de 6 e 7 anos. O carro da cabeleireira foi encontrado incinerado no dia seguinte em Goiás, revelando o primeiro cenário de horror enfrentado pelos peritos criminais.

Com o avançar das buscas, o que parecia um desaparecimento isolado revelou-se uma trama muito maior. Outros membros da família, incluindo o marido de Elizamar, Thiago Gabriel Belchior, e os sogros dela, Marcos Antônio e Renata Juliene Belchior, também foram dados como desaparecidos.

A brutalidade dos criminosos não poupou ninguém, e os corpos foram encontrados em diferentes localidades entre o Distrito Federal e o estado de Goiás. A estratégia de queimar os veículos e ocultar cadáveres em cisternas demonstrou, segundo a acusação, um planejamento prévio para dificultar o trabalho da polícia.

Durante o julgamento, a segurança no fórum foi reforçada devido à alta periculosidade dos envolvidos e à comoção social gerada pelo caso. Familiares das vítimas acompanham as sessões em silêncio, buscando por justiça após mais de um ano de espera pelo desfecho jurídico.

Os depoimentos prestados até agora reforçam a tese do Ministério Público de que houve traição, uma vez que alguns dos réus eram próximos às vítimas. Essa proximidade teria facilitado a execução do plano, permitindo que os criminosos monitorassem a rotina da família sem levantar suspeitas.

O juiz presidente do tribunal sinalizou que os trabalhos podem avançar pela noite e até mesmo pelo fim de semana. Dada a quantidade de réus e a gravidade das acusações, a previsão é que o veredito final demore mais alguns dias para ser lido em plenário.

A defesa dos acusados tenta, nesta fase de interrogatórios, contestar pontos específicos dos depoimentos anteriores e reduzir a responsabilidade individual de cada cliente. Cada palavra dita hoje pelos réus será confrontada com as provas técnicas colhidas durante a fase de inquérito policial.

Ao fim deste julgamento, o Distrito Federal espera encerrar um dos capítulos mais sombrios de sua crônica policial. A decisão dos sete jurados não apenas definirá o destino dos cinco homens, mas também servirá como uma resposta institucional à violência que dizimou três gerações de uma única família.

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