Não se sabe — ainda — se David Cosac Junior estava em suas plenas faculdades mentais. O que se sabe, com nitidez suficiente para causar repulsa, é que ele agrediu covardemente uma mulher e uma criança. Não foi num beco escuro, nem sob o véu da invisibilidade social. Foi no hall de um edifício residencial de Águas Claras, bairro de classe média alta do Distrito Federal, onde o silêncio costuma ser cúmplice e o constrangimento social vale mais que a indignação moral.
As acusações são gravíssimas: tentativa de feminicídio e infanticídio. Crimes que não admitem relativização, desculpas sociológicas de ocasião ou laudos psiquiátricos usados como cortina de fumaça. A polícia fez o que tinha de fazer. E, pela primeira vez em muito tempo, o poder político não fingiu que não viu.
A notícia chegou ao Palácio do Planalto. E Lula reagiu como chefe de Estado, não como espectador. Em pleno Natal — data que muitos usam como biombo para discursos vazios sobre “família” — determinou a abertura imediata de processo interno na CGU para responsabilização e expulsão do agressor do serviço público federal. Um gesto simples, mas raro num país onde cargos e salários altos costumam funcionar como salvo-conduto moral.
A pergunta que fica não é apenas o que levou um homem de meia-idade, com salário superior a 30 mil reais, a esse descalabro. Essa resposta caberá à investigação policial e ao Judiciário. A pergunta mais incômoda é outra: por quanto tempo ainda vamos tolerar que homens violentos se escondam atrás de crachás, títulos e vencimentos polpudos?
Lula foi direto ao ponto. Chamou o episódio pelo nome: agressão covarde e inadmissível. E cravou o que deveria ser óbvio, mas nunca é: o combate ao feminicídio e a toda forma de violência contra mulheres é compromisso e prioridade de governo. Não por ideologia. Por humanidade.
“Não vamos fechar os olhos aos agressores de mulheres e crianças estejam eles onde estiverem, ocupem as posições que ocuparem”, escreveu o presidente. A frase incomoda porque rompe com a tradição brasileira da vista grossa seletiva. Mais ainda quando ele lembra que servidor público não é apenas um técnico — é, ou deveria ser, um exemplo de conduta dentro e fora do trabalho.
Nas últimas semanas, Lula decidiu ir além do despacho burocrático. Assumiu publicamente a liderança de uma campanha nacional contra o feminicídio e a violência de gênero. Em pronunciamento em rede nacional, colocou o dedo onde muitos homens preferem esconder a mão: a responsabilidade é coletiva, mas o compromisso tem de ser, sobretudo, masculino. Compromisso de alma, como ele disse. Não de postagem em rede social.
Enquanto isso, a CGU agiu com a firmeza que se espera — e raramente se vê. Investigação preliminar aberta, afastamento imediato de funções, proibição de acesso aos prédios do órgão e acionamento da Comissão de Ética. Não é perseguição. É cumprimento da lei. A Lei nº 8.112 não deixa margem para dúvidas: servidor público deve manter conduta compatível com a moralidade administrativa. Violência doméstica não é falha de caráter privada; é violação grave do pacto civilizatório.
O ministro Vinícius de Carvalho foi igualmente claro: violência contra mulher e criança é crime. Não é “desentendimento”, não é “conflito do casal”, não é “assunto pessoal”. É agressão, afronta à dignidade humana e violação direta da lei penal. O resto é conversa mole para normalizar o inaceitável.
Este caso precisa servir de marco. Não por vingança, mas por justiça. Intolerância zero não pode ser apenas um bordão indignado que dura o ciclo da notícia. Tem de ser prática contínua, resposta firme, punição exemplar — doa a quem doer, caia quem cair.
Porque onde o Estado vacila, a violência avança. E quando o Estado age, como agora, ele lembra algo fundamental: mulher e criança não são estatística, nem dano colateral da brutalidade masculina. São vidas. E vida não se negocia.
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Carolina Paiva é Editora do Quadradinho em Foco
