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Irã tenta mediar paz de Paquistão e Afeganistão

Paquistão e Afeganistão mergulharam, nesta sexta-feira (27), em uma escalada militar sem precedentes desde o retorno do Taleban ao poder, em 2021, transformando tensões fronteiriças crônicas em um cenário descrito oficialmente por Islamabad como “guerra aberta”. O Irã se movimenta nos bastidores para tentar mediar a crise, enquanto a comunidade internacional acompanha com apreensão o risco de desestabilização regional.

O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, declarou nas redes sociais que a paciência de seu país “chegou ao limite”. “A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês”, escreveu na plataforma X, em mensagem direcionada ao governo do Taleban em Cabul.

Bombardeios e retaliações
Segundo o porta-voz do governo afegão, Zabihullah Mujahid, o Paquistão realizou ataques aéreos contra Cabul, Kandahar e a província de Paktia durante a madrugada. Ao menos três explosões foram ouvidas na capital afegã, embora não houvesse, até o momento, confirmação independente sobre vítimas ou alvos específicos.

Horas antes, forças afegãs haviam conduzido um ataque transfronteiriço contra posições paquistanesas, alegando tratar-se de retaliação a bombardeios realizados por Islamabad no domingo (22), que teriam deixado mortos em áreas de fronteira. Cabul afirma ainda ter capturado mais de uma dúzia de postos militares paquistaneses — versão prontamente negada pelo governo do Paquistão.

Islamabad sustenta que seus ataques visaram militantes abrigados em território afegão, especialmente integrantes do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), grupo insurgente que tem intensificado atentados em solo paquistanês. O governo afegão, por sua vez, rejeita a acusação de abrigar combatentes e classifica as ações paquistanesas como violação de soberania.

Cessar-fogo fragilizado
A escalada ocorre apesar de um cessar-fogo mediado pelo Catar, que já vinha sendo considerado frágil por analistas. Desde 2021, a fronteira de mais de 2.600 quilômetros — conhecida como Linha Durand — tornou-se palco frequente de confrontos, fechamentos de postos e deslocamentos de civis.

A deterioração das relações também se agravou nos últimos meses com a expulsão, pelo Paquistão, de milhares de refugiados afegãos sob o argumento de segurança nacional, medida criticada por organismos internacionais.

Mediação regional
O Irã, que compartilha fronteira com o Afeganistão e mantém relações complexas com ambos os lados, iniciou esforços diplomáticos para evitar que o conflito se amplie. Teerã teme que a instabilidade gere novos fluxos de refugiados e fortaleça grupos extremistas na região.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu contenção imediata e respeito ao direito internacional humanitário. Por meio do porta-voz Stéphane Dujarric, a organização solicitou que ambos os lados protejam civis e retomem a via diplomática.

Conflito ampliado
Especialistas alertam que, embora os dois países sejam majoritariamente muçulmanos e compartilhem laços históricos e étnicos — especialmente entre as populações pashtuns — as rivalidades políticas e disputas sobre a legitimidade da Linha Durand alimentam décadas de tensão.

O maior temor é que o confronto evolua para um conflito prolongado, envolvendo grupos insurgentes e redes transnacionais, com potencial de impactar não apenas o sul da Ásia, mas também rotas estratégicas e interesses de potências como China e Estados Unidos.

Até o momento, não há indicação de mobilização militar em larga escala além das regiões fronteiriças, mas o tom adotado pelas autoridades paquistanesas e a resposta firme de Cabul indicam que o risco de novos ataques permanece elevado.

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