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Isabel era poeta e contista, João dizia-se poeta

Isabel era poeta e contista. Das boas. Seus versos lancinantes harmonizavam-se bem com os contos, de um realismo amargo. Nos dois gêneros, sua matéria era o cacófato rodriguiano, a vida como ela é. Por isso, não teve desculpa para o que lhe sucedeu, exceto esta, expressa por uma paráfrase selvagem do filósofo francês Blaise Pascal: a perereca tem razões que a razão desconhece, mas a periquita saca de longe.

João dizia-se poeta, um homem sensível e progressista, mas não passava de um aprendiz de gigolô, talvez não de quinta, no máximo de terceira categoria. Profissionalizou na gigolagem quando fui instalar um aparelho de ar-condicionado da casa de Isabel. Sorriu muito para a coroa, no mínimo 30 anos mais velha do que ele. Percebeu que uma onda de tesão a envolvia e convidou-a para sair.

– Sair? Melhor não, aqui é mais divertido – pegou-o pela mão e levou-o para o quarto.

Em pouco tempo João passou a ser apresentado como “meu esposo”. Os amigos de Isabel franziam o nariz, desdenhosos, mas ela não dava a mínima: suas partes baixas estavam batendo palminha, fazia tempo que não eram tão homenageadas. E assim o casal desigual foi vivendo, Isabel em meio a seus contos e poemas, que mandava para os amigos; João…bem, ele consertava as coisas de casa (ou tentava, não era muito hábil), cometia poemas do gênero amor-flor-dor e era um acompanhante solícito. Gigolagem obriga.

Mas João queria mais, queria ser reconhecido como um igual pelos integrantes do clube dos poetas – designação que se davam os amigos de Isabel. Isso não acontecia, ao contrário, o desprezo em relação a ele só aumentava. Ressentido, o poeta-gigolô voltou-se contra Isabel. As retiradas de dinheiro, que ela fingia não perceber, tornaram-se ostensivas; as saídas dele em busca de mulheres mais novas viraram parte da rotina. Os porres e o uso de drogas passaram a ser acontecimentos quase diários. A poeta lastimava-se pelo zap com os amigos. Era aconselhada a mandar embora aquele gigolô fiodeumaégua, mas não dava ouvidos. Como parafraseei, a perereca tem razões etc. e tal.

Chegou o momento em que dominar a mulher idosa não bastava para João; ele quis controlar a figura pública da poeta e contista. Primeiro, mexeu no celular dela, reduzindo drasticamente o alcance de suas postagens. Depois, passou a escrever para os membros do clube dos poetas como se fosse ela própria, multiplicando os elogios à “sensibilidade e solicitude do meu querido João”. Eles logo perceberam a substituição, pois as mensagens, além de bobinhas e repetitivas, eram escritas em péssimo português. Por isso, convocaram uma reunião dos integrantes do clube dos poetas, por zoom. O tema era: “Sabemos que Isabel está prisioneira. Como libertá-la?”

Vates não são muito bons conspiradores, basta lembrar dos poetas-inconfidentes de Vila Rica, que meteram os pés pelas mãos; mas, afinal, concordaram em um plano de ação. Certo dia em que Isabel apareceu sozinha, na porta da casa, uma menininha correu até ela e entregou-lhe um celular. Estava aberto no whatsapp e continha algumas mensagens.

Isabel, sabemos que está com problemas. Mande áudios contando TUDO!

Mande vários áudios. Se você tiver de parar, os anteriores nos dão uma ideia da situação.

Distribuiremos os áudios entre todos os seus amigos.

Podemos libertá-la. Você nos autoriza a agir?

Jogue no mar esse aparelho depois de mandar o último áudio e responder à pergunta acima.

Ela obedeceu. Uma semana depois, o senhor João e a senhora Isabel foram convidados para um recital de poesia. O gigolô ficou todo pimpão, era a primeira vez que o nome dele aparecia antes do daquela velha ingrata, metida a escritora, que não tratava com o devido respeito o macho da casa.

No dia marcado, às 19 horas, Isabel e João saíram do edifício. Ela ia na frente, ele dois passos atrás, pois o gigolô evitava o mais possível andar a seu lado. Houve um disparo de fuzil; o projétil feriu Isabel no braço, de raspão – tiro preciso, para afastar suspeitas de cumplicidade dela – e se cravou no peito de João, que morreu na hora.

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