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Janeiro Não Começa em Branco

Nós gostaríamos de acreditar que o início de um novo ano é sempre um território limpo. Um janeiro em que se escreve sobre resoluções íntimas, pequenos rituais cotidianos, expectativas discretas. Gostaríamos de inaugurar 2026 falando dos primeiros dias do calendário, do sol que insiste, da vida que tenta recomeçar. Mas o mundo raramente nos concede essa inocência.

Enquanto tentamos organizar palavras para falar de nós, o noticiário nos atravessa com a brutalidade de sempre. Os Estados Unidos, mais uma vez, acionam um poder que se apresenta sob narrativas conhecidas, combate ao narcotráfico, defesa da democracia, segurança internacional. Discursos antigos, repetidos com novas roupagens. Como nos lembra Noam Chomsky, o vocabulário do poder raramente revela suas reais motivações; ele serve antes para torná-las palatáveis.

Nós sabemos, ou ao menos suspeitamos, que nenhuma ação geopolítica de grande escala acontece por acaso. Quando olhamos para a Venezuela, não vemos apenas uma crise política: vemos corpos, vemos pessoas morrendo, vemos uma população historicamente atravessada por sanções, bloqueios e disputas externas. E vemos, também, uma das maiores concentrações de petróleo do mundo. Coincidência nunca foi uma categoria confiável na análise social.

A pergunta que nos persegue não é nova: será mesmo sobre narcotráfico? Ou estamos diante de mais um capítulo daquilo que Eduardo Galeano chamou de “veias abertas” da América Latina territórios ricos em recursos naturais e pobres em soberania? A história nos ensinou que o sul global raramente é palco de intervenções desinteressadas.

Byung-Chul Han diria que vivemos numa era em que a violência não precisa mais se apresentar apenas como força bruta; ela opera também como narrativa, como gestão do discurso, como administração do sofrimento alheio à distância. Morre-se longe, morre-se em silêncio, morre-se fora do enquadramento que gera comoção. Algumas vidas seguem sendo consideradas descartáveis.

Nós, que escrevemos desde o chão da América Latina, não conseguimos separar política de existência. Não há neutralidade possível quando a morte atravessa fronteiras e quando o poder decide, mais uma vez, quem pode viver e quem pode ser sacrificado em nome da estabilidade do mercado, da energia, do capital. Achille Mbembe chamaria isso de necropolítica: a administração calculada da morte como estratégia de governo.

Talvez por isso janeiro não comece em branco. Ele começa manchado de história, de interesses, de lutos que não são oficialmente nossos, mas que nos dizem respeito. Porque toda vez que um país latino-americano é tratado como quintal estratégico, todos nós somos lembrados do lugar que nos reservaram no mundo.

Ainda assim, escrever é um gesto de resistência. Nós escrevemos para não normalizar, para não aceitar o discurso pronto, para não nos acostumarmos à morte dos outros. Escrevemos porque pensar criticamente também é uma forma de cuidado coletivo. E porque, mesmo quando o mundo insiste em repetir suas violências, nós insistimos em nomeá-las.

Talvez seja isso que nos reste no início de 2026: não a ilusão de um recomeço puro, mas a lucidez de quem sabe que viver, aqui, sempre foi um ato político. E que seguir pensando, escrevendo e se solidarizando é uma maneira de dizer ainda estamos aqui.

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