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João Firmino Pena, meu verdadeiro amigo Zeca Diabo

José Escarlate

Ele era meu amigo desde a minha primeira estada em Brasília. João Firmino Pena trabalhava no Banco Nacional, aquele do guarda-chuva, transferido de Beagá. Chegou nos primórdios da cidade, depois de inaugurada. Calmo, tranquilo, irreverente, depois do expediente gostava de um bom uísque, mas só bebia após as sete da noite. O preferido era o bar do Hotel Nacional. Fizemos amizade mais forte ainda com a minha ida para o Palácio do Planalto. Mineiro de Caratinga, defendia sua cidade com unhas e dentes. Pouca gente sabe, mas ele se iniciou no jornalismo como colunista social e de fofocas, no jornal Caratinga.

Era o “Penumbra”, provocador, atento, conquistando furos jornalísticos na sua cidadezinha. Entre suas façanhas foi conseguir exportar Agnaldo Timóteo para os céus do Brasil e fazer de Stael Abelha, sua conterrânea, miss Brasil 1961. Companheiro de infância do Ziraldo, tornou-se atração com a coluna “Notas de um repórter”. Acreditando no sonho de JK, arrumou a trouxa e veio. Alma pura, era brincalhão e gozador. Tinha suas manias. Falando ao telefone, não se despedia do interlocutor. Simplesmente desligava o aparelho.

No Planalto, pregou grandes peças, inclusive a mim. Na sala de imprensa fazíamos rodízio para tirar do gravador discursos de ministros e do próprio presidente. Cada dia era um. Certa vez tirei do gravador discurso de Geisel lançando regiões metropolitanas, onde ele citava Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Pedi ao Pena para tirar cópias. Ele foi e, quando voltou, depois de distribuir o texto para os colegas, enviei a matéria para a Agência Nacional, que distribuiu a íntegra pelo país. Até ai, tudo bem.

Na tarde seguinte, ao chegar ao Planalto, vejo pregada no quadro de avisos a primeira página do jornal “O Caratinga” e, em letras garrafais, a manchete: “Geisel cita Caratinga em seu discurso”. Simplesmente o Pena havia colocado na matéria, ao lado das cidades citadas, o da sua Caratinga. A gozação foi imensa.

Pena foi meu companheiro na Agência Nacional e EBN e amigo até o fim da vida. Generoso, gostava de ajudar a todos. Quando fui colocado na geladeira por ocasião da Nova República, ele sentiu meu drama e falou com o Fernando César, porta voz de Sarney, que ligou para lá e mandou que acabassem com aquilo. Uma tarde, chego ao Planalto e o Pena e Jankiel Gonczarowska discutiam. A mulher do Pena, dona Débora, era dentista e trabalhava no ministério do Planejamento. Jankiel, doido por uma mordomia, pediu ao Pena que ela atendesse sua filha. A menina foi e teve arrancado o dente errado. Pena, emparedado, se desculpava. Foi quando o Jankiel desabafou: “Eu desculpo, mas minha filha é que ficou sem o dente”.

Bom de copo. Bebia todas as noites. Repórter do jornal Última Hora e embalado por Samuel Wainer, que gostava dele, Pena não bebia à luz do dia. Só depois das sete da noite. Quando inventaram o horário de verão, 19 horas ainda estava claro. Foi quando indagaram a ele se ia esperar escurecer. “Claro que não. Se estiver claro, coloco óculos escuros”. Pena só me chamava de “Zeca Diabo”, personagem do ator Lima Duarte, criado por Dias Gomes na novela “O Bem Amado”. Ligava pra minha casa, Aurora atendia e ele pedia, “me chama o Zeca Diabo”. Isso era em qualquer lugar. Na EBN, ou onde fosse.

Mas ele não era só ternura. Um dia, em plena revolução, chegando ao Planalto foi informado de que sua credencial havia sido cassada pelo capitão Tedeska, chefe da segurança. Com bom trânsito com o então coronel Meira Mattos, Pena sabia que o militar jantava periodicamente no restaurante Caravelle. Encontrou-se com ele e disse do problema. Antes, escreveu uma carta ao general Geisel, do Gabinete Militar de Castello Branco, que a repassou a Meira Mattos.

Chamado a palácio um mês depois, Meira Mattos abriu: “Pena, o capitão Tedeska vai lhe devolver a credencial. Está tudo em ordem. Passe na segurança”. Ai o Pena encrespou: “Perdão, coronel. Estarei na sala de imprensa aguardando o capitão para receber de volta minha credencial”. Às 15 horas, Tedeska devolveu o documento ao João Pena. Mas o Gabinete Militar prosseguiu nas investigações. Resumo da ópera: foi constatado que um colega do Pena, da Radio Nacional, o dedurou dizendo que ele “sabotava” a cobertura do presidente Castello Branco.

Pena era querido por todos, mas não tinha estampa. Cobria o Palácio pela Rede Globo, mas sem imagem. Quando havia algo importante a Globo mandava os olhos verdes do Pedro Rogério ou a Beatriz Thielmann. Pena era grande amigo do Toninho Drummond, “capo” da emissora, em Brasília.

Na madrugada do dia 3 de outubro de 1989, após completar 60 anos de idade, o valente e querido amigo João Firmino Pena nos deixava. Faleceu ao lado da mulher, Débora, e das filhas Luciene, Denise e Liliane, às quais dedicou seu livro “De Caratinga às Muralhas da China”, com a história de sua vida. Fui ao sepultamento, na Ala dos Pioneiros do Campo da Esperança. Fiquei intrigado quando vi seu caixão fechado. Até hoje sou grilado com isso. Denise e dona Débora negam que ele tenha sido agredido, o que eu suspeitava. Disseram que fora desejo seu, o que duvido.

O cronista Dilson Ribeiro, membro da Academia de Letras de Brasília, assinala que, no livro, Pena “radiografa as mazelas do regime que sepultamos em 15 de março de 1985. Deixou os limites da cidadania mineira, ganhou os quatro cantos do mundo para ver de perto as muralhas da China e os mistérios da civilização oriental. Finaliza dizendo que “a moldura de João Pena sempre foi exemplo de correção com os colegas, um verdadeiro bom caráter”. Todos nós ficamos órfãos de um grande amigo.

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