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José era multimilionário de marré de si

José, 65 anos, era milionário. Mentira minha, era multimilionário. Dos graúdos, multimilionário de marré de si.

Solteiro e mulherengo, ele se envolvia em uma aventura após outra. Casadas, viúvas ou solteiras, nenhuma mulher era ignorada por seu apetite sexual. Bonitas ou feias, novinhas ou maduras, interessantes ou chatas pra dedéu, qualquer prazer o divertia.

Quando a riqueza de José atingiu o ponto de não retorno, passando a crescer por iniciativa própria, independentemente das decisões empresariais tomadas por ele, multiplicaram-se na justiça os processos de reconhecimento de paternidade. Os caríssimos advogados a serviço de José tiveram a vida ganha, rechaçando vários pedidos, estabelecendo acordos com cláusulas de confidencialidade e desistência de processo com outros litigantes que poderiam, sim, ser filhos do milionário. José não dava a mínima, os gastos com advogados e com os acordos eram gotas d’água no oceano de seus bens, seu tempo era valioso, havia muitas mulheres a conhecer, a conquistar.

Aos 66 anos, após submeter-se a uma bateria de exames, José recebeu dos médicos uma notícia definitiva: tinha menos de dois meses de vida. Durante uma semana ele abandonou os negócios – e, supremo sacrifício, as mulheres –, pensando no que fazer. Em seguida, começou a agir.

Primeiro, instruiu seus advogados a comunicar a todos os que o haviam processado que ele reconhecia, sim, a paternidade. Paralelamente, fez circular, por todos os infindáveis meios a seu alcance, a informação de que tinha um número enorme de filhos naturais e estava disposto a reconhecê-los. O(a) interessado(a) tinha apenas de enviar um documento, registrado em cartório, com a frase, “Desejo que me reconheça como filho(a). O nome e um retrato da genitora podiam acelerar o processo, mas não eram indispensáveis.

Em pouco tempo, centenas de milhares de pedidos chegaram a José. As centenas de rebentos já reconhecidos tentaram conter a maré crescente de solicitações, preservar só pra si a boquinha, mas nada conseguiram. O reconhecimento de paternidade era uma prerrogativa do progenitor, mesmo que o novo meio-irmão tivesse olhos puxados, que nem os do pai, seu Toshiro, e da mãe, a honestíssima dona Miyoko.

Quando José morreu, cada um de seus mais de 500 mil herdeiros recebeu uma quantia razoável, nada de tirar o fôlego, mas razoável. Bom pra eles.
Antes que me acusem de plágio, admito: a ideia deste conto veio de um romance do escritor norte-americano Kurt Vonnegut. Não lembro de qual, minha memória virou uma lama.

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