Júlio, mal pisou na calçada, foi atingido por uma saraivada de impropérios, como se tivesse entrado no inferno. No começo, não entendeu nada. No entanto, assim que dona Lourdes se aproximou e contou o que havia acontecido, era como se Júlio estivesse no começo.
— Dona Lourdes, e daí que o Tutuca morreu?
— Mas, Júlio, como você pode ser tão insensível?
— Desculpe, dona Lourdes, mas é que esse cachorro vivia latindo pra mim.
— E por isso você o matou?
— Eu o quê?
— Sim! Por que você fez isso?
— Eu?
— E quem mais poderia ser?
— Sei lá!
Tutuca, o velho vira-lata da rua, havia aparecido morto. A língua para fora, os olhos arregalados, um vômito sanguinolento ao lado.
— Você jura que não foi você, Júlio César de Almeida Silva?
— Juro, dona Lourdes! Não mato nem barata, vou lá matar o Tutuca?
— Hum!
— Dona Lourdes, mas o Tutuca morreu de quê?
— Ainda estamos avaliando. A Márcia, que já trabalhou numa veterinária, disse que parece veneno, mas não descartou velhice e piripaque.
— Piripaque? E cachorro tem isso?
— E se tem! Cachorro é que nem gente, só que sem maldades. Não fofoca, não fala da vida alheia, não vive tomando conta da vida dos outros e também não é traiçoeiro que nem aquele coisa ruim do Paulo lá da esquina. Nunca vi uma criatura tão boa.
— O Paulo?
— Não, Júlio! O Tutuca! Aquele Paulo é um desalmado. Acredita que nunca foi à igreja?
— Vai ver tem outra religião.
— Que nada, Júlio! Aquele ali não tem Deus no coração.
— Hum…
— Por falar nisso, não tenho te visto mais na igreja.
— Vida corrida, dona Lourdes. Trabalhando demais.
— Hum! E desde quando alguém não tem tempo pra Deus? Pois trate de arrumar um momento pra Ele, viu, seu Júlio César de Almeida Silva?!
— Hum… E o Tutuca?
— O que tem ele?
— O que vão fazer com o corpo?
— Ah, Júlio, a gente vai jogar na caçamba de lixo. Mais tarde o caminhão passa e leva.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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