O Colégio Galois, tradicional instituição de ensino particular de Brasília, foi condenado pela Justiça do Distrito Federal a indenizar estudantes da Escola Franciscana Nossa Senhora de Fátima que foram vítimas de racismo e preconceito social. O episódio ocorreu em abril de 2024, durante uma partida de futsal da “Liga das Escolas”, e a decisão judicial foi confirmada pela Defensoria Pública do DF nesta segunda-feira (30). O caso gerou forte comoção ao expor ataques discriminatórios proferidos por adolescentes em um ambiente esportivo escolar.
De acordo com o processo, alunos do Galois atacaram os adversários com termos pejorativos como “macaco”, “pobrinho” e “filho de empregada”. A sentença estabelece que o colégio deverá pagar uma indenização de R$ 6 mil por danos morais para cada uma das vítimas identificadas. Além da reparação financeira, a instituição foi obrigada pela Justiça a custear e oferecer acompanhamento psicológico especializado para os jovens afetados pelo período de dois anos, visando mitigar os traumas causados pelas ofensas.
O estopim para a judicialização do caso foi uma carta de repúdio publicada pela diretora-geral da Escola Fátima, Inês Alves Lourenço, ainda em abril de 2024. No documento, a gestora detalhou que o ambiente do ginásio tornou-se “inóspito” e que os alunos saíram da competição profundamente abalados. A diretora destacou que, embora houvesse responsáveis e prepostos do Colégio Galois presentes no momento das agressões verbais, nenhuma providência efetiva foi adotada para interromper os ataques.
Relatos das vítimas revelam a crueldade das abordagens. Lucas Gonçalves, de 16 anos, descreveu o sentimento de “raiva e tristeza” ao ouvir frases como “pega o preto na ala” e comentários ofensivos sobre o cabelo dos atletas. Morador da Candangolândia, Lucas relatou que aquele era seu primeiro ano em uma escola particular e que não imaginava enfrentar tal nível de hostilidade em um evento que deveria ser pautado pelo espírito esportivo e pelo respeito mútuo.
Outro depoimento marcante foi o de Diego Riquelme, de 15 anos e capitão da equipe da Escola Fátima. O jovem, morador de Ceilândia, contou que as ofensas atingiram também as famílias dos atletas, com músicas que ridicularizavam as mães dos jogadores, chamando-as de empregadas domésticas. Diego ressaltou a dor de ter que retornar para casa e explicar para a família que o jogo de futebol havia se transformado em um cenário de humilhação racial e social.
A Escola Fátima é conhecida por acolher muitos estudantes-atletas, e os alunos relataram que já eram alertados sobre possíveis hostilidades, mas que a intensidade do ocorrido no torneio superou qualquer previsão. A condenação judicial reforça a responsabilidade das instituições de ensino sobre o comportamento de seus alunos em eventos externos e a obrigatoriedade de intervir prontamente em situações de crime de injúria racial e preconceito.
Em sua defesa durante o processo, o Colégio Galois afirmou ter iniciado uma investigação interna rigorosa para identificar os envolvidos e aplicar medidas disciplinares. A escola declarou estar comprometida com ações educativas e expressou solidariedade aos alunos e à comunidade da Escola Fátima. Entretanto, para a Justiça, as ações preventivas e reativas da instituição foram insuficientes para evitar o dano moral coletivo e individual causado aos adolescentes.
A decisão judicial destaca que o ambiente escolar e suas extensões, como campeonatos esportivos, devem ser espaços de formação ética e cidadã. A condenação serve como um precedente importante no Distrito Federal para o combate ao racismo estrutural e ao elitismo, punindo a negligência de instituições que falham em coibir discursos de ódio entre seus estudantes. O acompanhamento psicológico determinado na sentença visa garantir que os jovens agredidos tenham suporte para processar a violência sofrida.
A reportagem buscou contato com o Colégio Galois para um novo posicionamento sobre a condenação e o cumprimento das medidas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. A Defensoria Pública do DF, que acompanhou o caso, reiterou que continuará monitorando o cumprimento das indenizações e da assistência psicológica às vítimas, reforçando que o racismo é um crime que exige respostas institucionais severas.
O desfecho deste caso coloca em pauta a necessidade de políticas antibullyng e antirracistas mais robustas nas escolas particulares da capital. Enquanto a recém-nascida e sua mãe (de outro caso recente) já tiveram alta, as feridas emocionais dos alunos da Escola Fátima começam agora a ser tratadas sob o amparo da lei, buscando garantir que o esporte escolar volte a ser um lugar de integração e não de segregação.
