O Tribunal do Júri de Ceilândia encerrou, nesta quarta-feira (25), um dos capítulos mais sombrios da violência recente no Distrito Federal. Sete pessoas foram condenadas pela morte de Geves Alves da Silva, de 32 anos, executado com um tiro na cabeça em abril de 2023. O julgamento, que se estendeu por dois dias, confirmou a tese de um crime meticulosamente planejado e motivado por vingança e disputas familiares.
No centro da trama criminosa estava Aíla Lopes Neves, ex-esposa da vítima, apontada como a mandante do homicídio. Segundo o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), o crime foi motivado por conflitos constantes relacionados à guarda e criação do filho que o casal tinha em comum. Aíla recebeu uma sentença de 24 anos e seis meses de reclusão pelo seu papel fundamental na coordenação da execução.
O crime, ocorrido na noite de um domingo, chocou a comunidade da QNM 18. Geves havia acabado de sair de um culto religioso e estava dentro de seu carro, acompanhado de sua atual companheira e outros passageiros, quando foi surpreendido em um semáforo. Dois homens em uma motocicleta emparelharam com o veículo e efetuaram os disparos que atingiram fatalmente a cabeça da vítima.
As investigações revelaram que a execução não foi um ato isolado, mas o resultado de uma logística complexa. Aíla contou com o auxílio direto de sua amiga, Stephanie Karoline Silva Vieira, para organizar a empreitada. Juntas, elas chegaram a adquirir a motocicleta utilizada no crime em um leilão e financiaram o deslocamento dos executores, que vieram de Ipojuca, em Pernambuco, especificamente para realizar o serviço em Brasília.
Os responsáveis diretos pelos disparos e pela pilotagem da moto, Alex Sandro da Silva e Ezequiel Severino da Silva, receberam as penas mais pesadas do grupo. Condenados por homicídio qualificado mediante pagamento e pela tentativa de homicídio contra a companheira de Geves, as penas totalizaram 31 e 37 anos de prisão, respectivamente. O tribunal entendeu que a periculosidade da dupla exigia uma resposta rigorosa do Estado.
O planejamento contou ainda com a participação de intermediários e incentivadores. Ebeson Damião dos Santos, que fez o contato entre a mandante e os executores, foi condenado a 21 anos. Já Nádia Nonata de Santana, companheira de Stephanie, recebeu uma pena de 18 anos por ter sido a responsável pela aquisição da arma de fogo utilizada no atentado, garantindo os meios para a consumação do ato.
Um detalhe perturbador revelado durante o processo foi a participação de Francisca Diva Oliveira da Silva. Apresentando-se como “mãe de santo” e conselheira espiritual de Aíla, ela foi condenada a 15 anos de reclusão. Segundo a denúncia, Francisca não apenas incentivou o crime, como também orientou a ex-esposa sobre o momento “espiritualmente adequado” para que a execução fosse realizada sem falhas.
Durante o período que antecedeu o julgamento, a situação prisional dos réus era variada. Enquanto alguns permaneciam em presídios, Aíla estava em prisão domiciliar para cuidar do filho, e Francisca alegava motivos de saúde para o mesmo benefício. Stephanie havia sido solta recentemente por excesso de prazo na instrução processual. No entanto, com a leitura da sentença, o cenário mudou drasticamente.
O juiz responsável pelo caso determinou o cumprimento imediato das penas, revogando qualquer benefício de liberdade provisória ou prisão domiciliar. Todos os sete condenados foram encaminhados ao sistema prisional logo após o encerramento da sessão, com a justiça negando-lhes o direito de recorrer em liberdade, dada a gravidade e a crueldade dos fatos apresentados.
A condenação traz um alento à família de Geves Alves da Silva, que morreu dias após o ataque no Hospital Regional de Ceilândia. O desfecho do caso reforça o combate ao crime sob encomenda no DF e encerra a trajetória de um grupo que transformou uma disputa familiar em uma operação de extermínio planejada entre estados.
