O Tribunal do Júri de Brasília estabeleceu, nesta sexta-feira (13), um prazo de 15 dias para que a polícia apresente a análise dos dados de telefonia e localização de oito pessoas ligadas ao “Crime da 113 Sul”. A decisão foca nas Estações Rádio-Base (ERBs), as antenas de celular, para rastrear o deslocamento de envolvidos e vítimas na época do triplo homicídio, ocorrido em 2009.
A medida atende a um pedido da defesa de Adriana Villela, apontada como mandante do crime. Após ter sua condenação anulada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em setembro de 2025, o processo retornou à primeira instância. A defesa busca, com esses dados, verificar a movimentação de pessoas citadas no inquérito em datas próximas ao crime, tanto em deslocamentos dentro da capital quanto em viagens para o Distrito Federal.
O relatório deverá detalhar os registros dos terminais telefônicos de Leonardo Campos Alves e Paulo Cardoso Santana, já condenados pela execução das mortes, além de Neilor Teixeira da Mota, tio de Paulo. A análise também abrange os aparelhos dos porteiros do prédio à época, Marcos Santana e Gerson Belarmino de Sousa, buscando inconsistências ou confirmações de presença no local.
As vítimas — o ex-ministro do TSE José Guilherme Villela, sua esposa Maria Villela e a funcionária Francisca da Silva — também terão seus dados monitorados retroativamente. O objetivo técnico é precisar o horário exato em que cada um chegou ao apartamento no dia da tragédia. Essa reconstrução cronológica é considerada fundamental para a nova fase de instrução do processo.
O “Crime da 113 Sul” chocou Brasília em agosto de 2009 pela violência e pelo perfil das vítimas. O casal Villela era composto por advogados renomados que atendiam o alto escalão da República. No sexto andar do bloco C, eles foram assassinados a facadas: José Guilherme recebeu 38 golpes, Maria 12, e a empregada doméstica Francisca, 23.
A investigação original levou à prisão e condenação dos executores em 2013 e 2016. Leonardo Campos Alves, ex-porteiro do edifício, e seu sobrinho Paulo Cardoso Santana cumprem penas que somam mais de 60 anos cada. Em seus depoimentos, os executores afirmaram que o crime foi encomendado por Adriana Villela pelo valor de 27 mil dólares e joias.
Adriana, arquiteta e urbanista formada pela UnB, sempre negou a participação no assassinato dos pais. Condenada em 2019, ela obteve a anulação da sentença após o STJ entender que houve cerceamento de defesa durante o julgamento. Atualmente, Adriana reside no interior da Bahia, mantendo-se afastada de Brasília devido à repercussão do caso.
A nova decisão judicial também estipula o mesmo prazo de 15 dias para que a defesa de Adriana realize cópias de mídias que já estão disponíveis no processo desde dezembro. A estratégia dos advogados é utilizar a tecnologia de geolocalização da época para confrontar os depoimentos que sustentaram a acusação de mandante contra a arquiteta.
O uso das ERBs funciona como um “GPS retroativo”, identificando a qual torre um celular se conectou em determinado horário. Para a defesa, esses registros são provas técnicas incontestáveis que podem mudar o rumo das interpretações sobre quem estava presente ou em contato no momento em que o triplo homicídio era planejado e executado.
Com a reabertura da fase de provas, o Crime da 113 Sul entra em um capítulo decisivo após 17 anos de idas e vindas no Judiciário. A expectativa é que o cruzamento dos dados telefônicos traga a clareza necessária para o novo julgamento, enquanto a capital federal aguarda o desfecho de um dos episódios mais emblemáticos de sua história policial.
