Em uma cidade rural muitos produtores produziam alimentos e os vendiam para os grandes centros urbanos. Cooperavam para manter um sistema onde todos produziam mais ou menos o mesmo tanto e por conta disso ganhavam mais ou menos o mesmo tanto também.
A vida deles não era luxuosa, mas era tranquila. Ninguém passava necessidade e todos acessavam um consumo de produtos razoáveis. Trabalhavam algumas horas por dia, menos tempo do que os trabalhadores que não estavam na cooperativa. Os filhos frequentavam escolas boas e durante a semana conseguiam ficar um tempo com a família. Em geral tinham uma vida tranquila e pacata.
Com o passar do tempo dois dos produtores começaram a querer desgarrar dos demais. Eles achavam que podiam ganhar muito mais do que ganhavam com aquele formato de cooperativa. Sabiam que se todos trabalhassem para eles, conseguiram ficar na boa e teriam muito mais dinheiro e poder.
Em conjunto criaram um plano para tomar o controle da cooperativa, fizeram tudo parecer que seria um processo democrático. Queriam iludir os demais produtores, criar um sistema de hierarquia na cooperativa, com isso dariam um golpe nos demais.
Fariam todos concordar com uma votação para presidente e vice presidente dentro da cooperativa. Venderam a ideia de que com essa hierarquia poderiam produzir de forma mais eficiente os produtos do campo.
Os debates foram se aprofundando e os demais produtores viram que o plano dos dois não era dos melhores, decidiram não aceitar. Definiram continuar da forma que sempre atuavam. Essa definição rompeu o grupo, os dois produtores mais gananciosos decidiram sair e criar uma empresa para eles.
Cada um criou uma empresa sua e começou a vender os produtos que produziam. No início eles perderam receita por estarem vendendo tudo sozinhos, antes conseguiam valores melhores pôr as vendas serem feitas em grupo.
Esse cenário adverso fez com que os dois pensassem em formas de ganhar mais dinheiro rapidamente. A possibilidade que cogitaram era de roubar o lucro da produção dos antigos colegas.
Para que esse plano se concretizasse precisavam intimidar os demais, usar de força para reprimir a possível reação dos produtores que seriam roubados. Eles se juntaram, compraram algumas armas, contrataram alguns seguranças e se esconderam em casas afastadas da cidade onde tinham suas terras produtivas.
O plano foi posto em ação e todos precisavam pagar uma cota para produzir na cidade. Esse absurdo foi recebido muito mal pelos demais produtores, sabendo da reação adversa que aconteceria a resposta foi com violência. Os seguranças, chamados de jagunços, entraram em cena para garantir a execução das cotas.
Qualquer um que fizesse oposição ao novo formato seria penalizado e suas famílias sofreriam repressão. A maioria decidiu não confrontar para não sofrer, porém alguns produtores se juntaram e decidiram não pagar a cota.
Quando essa informação chegou ao ouvido dos produtores gananciosos eles mandaram os homens armados na casa das lideranças desse movimento de boicote. A regra era uma apenas, causar o terror e essa ação serviria de exemplo para os demais.
Os jagunços aramados foram na casa das duas lideranças do boicote às cotas e mataram os homens, estupraram as mulheres e por fim atearam fogo na residência onde moravam. Não contentes os gananciosos ainda tomaram posse das terras dos seus opositores, ali produziriam mais e ganhariam altos lucros.
A reação foi de espanto e medo nos demais produtores, viram que se fizessem oposição seriam dizimados. Tentavam falar com os dois ambiciosos para resolver a questão de forma pacífica, mas eles se escondiam em outra cidade e ainda tinham um exército de jagunços armados para lhes proteger.
Chegou um momento em que somente o pagamento das cotas não era mais o suficiente, então os dois gananciosos partiram para tentar tomar as terras alheias. Começaram a procurar os outros produtores na tentativa de comprar as terras deles. Falavam que manteriam as famílias nas terras e que todos seriam como funcionários, trabalhariam e produziriam como sempre fizeram, só que as vendas seriam de responsabilidade dos novos donos da terra.
Não foi uma ideia bem aceita, pois quem venderia sua terra que produz seu ganho para ficar trabalhando como funcionário? Os gananciosos tiveram que mudar os planos. Dessa vez não usariam de violência, pois precisavam daquelas pessoas produzindo para eles.
Traçaram um plano para manipular os demais, pegaram um dos produtores da cidade e começaram a investir bastante dinheiro nele. Queriam fazer parecer que quem estivesse produzindo em parceria com eles ganharia muito mais do que produzindo sozinho.
Esse produtor alegava que a parceria o tinha rendido bons frutos, agora podia aumentar sua casa e comprar um carro novo. Saia toda a semana para a capital e lá comia em restaurantes chiques, até mesmo pode mandar seus filhos pra universidade pagando o aluguel deles na capital.
Alguns produtores começavam a olhar com bons olhos essa possível parceria, alguns outros sabiam que se tratava de um teatro para seduzir o povo. Devido a violência empregada pelos jagunços em casos de oposição os mais lúcidos acabavam se calando. Cerca da metade dos produtores saíram da Cooperativa e aderiram ao formato de parceria, cederam suas terras em troca de um valor simbólico e começariam a atuar com um salário fixo.
Esse movimento enfraqueceu muito a Cooperativa, que acabou perdendo receita e estava tendo que vender os produtos por um valor insustentável. O novo formato de parceria gerava produtos com um valor melhor e conseguia atingir mercados mais interessantes.
No início todos estavam bem com a parceria, ganhavam um valor menor do que antes, mas seguravam por agora ganhar um valor fixo. Só que no ano em questão teve uma baixa na procura de alguns produtos produzidos ali na cidade. Os lucros caíram e os dois produtores, que agora eram dono da maioria das terras naquela região, seguraram o dinheiro.
A baixa procura impactou na vida dos funcionários. Todos começaram a receber menos e o discurso era que todos ajudariam a apagar os prejuízos desta temporada ruim. Muitos não aceitavam esse discurso, achavam que os dois mais ricos deveriam segurar a barra para os que ganhavam menos pudessem seguir trabalhando.
Não foi isso que aconteceu, na verdade de forma preventiva os dois ricos colocaram os jagunços nas ruas para intimidar os mais pobres. Como agora tinham mais dinheiro do que antes o exército de jagunços cresceu muito. A população da cidade vivia sob ameaça o tempo todo, quem falasse qualquer coisa fora do que era aceito sofria com repressão.
Ao mesmo tempo a Cooperativa tinha calculado essa baixa no mercado e havia produzido variedades de produtos que estavam em alta. Com essa estratégia conseguiram se manter fortes mesmo na crise. Isso chamou atenção dos produtores parceiros das empresas e também dos dois produtores gananciosos.
A Cooperativa abriu uma nova chamada para novos cooperados, queriam trazer de volta pessoas que tinham experiencia e que já haviam sido cooperadas. Os dois gananciosos sabiam que se perdessem os produtores, funcionários deles, teriam um prejuízo ainda maior.
Sabiam que se destruíssem a Cooperativa de forma material ela se reconstruiria em seguida. Precisavam fechar aquela Cooperativa de forma legal. Então compraram alguns políticos e membros do judiciário. Fomentariam um esquema fraudulento de corrupção dentro da Cooperativa.
O esquema era que a pessoa do financeiro iria fazer as vendas sem emitir as notas fiscais, caracterizando sonegação de impostos. As vendas seriam de valores elevados e os valores de impostos também seriam elevados na mesma proporção.
Os meses de venda se passaram e os cooperados acreditavam que estava tudo certo, os ganhos haviam sido ótimos e todos conseguiram um dinheiro que ajudaria muito no decorrer do ano. A divisão havia sido igualitária entre todos os parceiros da Cooperativa. Muitos parceiros das empresas haviam largado a parceria e ido trabalhar nas terras da Cooperativa.
Em seguida que dividiram o dinheiro entre todos saiu a acusação de fralde fiscal. Pegando os produtores de surpresa, ninguém imaginava esse acontecimento. Foram atrás da pessoa que fazia o financeiro, ela havia sido assassinada um no dia anterior.
Os dois produtores gananciosos tinham corrompido ela e depois fizeram a queima de arquivo matando-a. Não havia registro dos não pagamentos de impostos e a justiça iria vir com tudo pra cima. Os políticos corruptos abriram campanha contra a Cooperativa e seus principais líderes.
A decisão foi a de que todos os lucros que a Cooperativa teve estavam bloqueados, além de todos os bens que possuíam. Os diretores foram presos e o CNPJ da Cooperativa foi cassado. Um golpe de mestre derrubou uma estrutura inteira, os gananciosos não tinham mais concorrentes na cidade. As terras da Cooperativa foram a leilão e os dois produtores ricos compraram todas elas.
Agora estava constituído o monopólio, duas figuras eram donos de todas as terras da região, deixaram de ser produtores e se tornaram empresários, onde antes mais de trezentas famílias produziam. Quem quisesse produzir agora teria que obrigatoriamente ser um funcionário das empresas do monopólio de terras.
Os salários eram de baixo valor, quando não praticavam trabalho escravo nas fazendas. Todos viviam de forma precária mesmo gerando altas taxas de lucro. Os empresários tinham suas vidas luxuosas garantidas e nem precisavam mais sujar suas mãos de terra.
Um período de bonança sem se preocupar com nada, muito dinheiro estava entrando e o mercado estava aquecido. Até que veio uma nova crise externa, baixando o volume de vendas pela metade.
Os dois empresários perderam muita receita e precisavam de muito dinheiro para manter ser poder perante os demais. Não era nada barato manter os jagunços e ainda molhar a mão de políticos e juízes.
Começaram a conflitar entre si, pois toda a crise gera a derrubada de um rico para manter outro em pé. Os dois parceiros agora tinham muitas divergências, só havia metade da receita de antes e esse dinheiro só dava para manter um no poder.
Fora que a possibilidade de derrubar o outro favoreceria quando o mercado voltasse a estar em alta. Os conflitos se agravaram a ponto de cada um tomar para si seu exército de jagunços e também sua massa de funcionários. Declaram guerra um ao outro.
Os funcionários viam isso como uma possibilidade de tomar para si as terras, agora os empresários teriam que descer do pedestal e conversar com eles. Nessa conversa colocariam suas condições para apoia-los.
Os empresários pensavam que as negociações com os funcionários precisavam ser bem encaminhadas, pois se houvesse debandada deles de um lado para o outro seria uma derrota garantida.
Cada um dos empresários começou a negociar as alianças com os jagunços e com os funcionários, prometiam muitas coisas. Diziam que se ganhassem essa guerra a vida de todos poderia melhorar. Claro que os jagunços e os funcionários ouviam tudo aquilo de forma cética.
Em dado momento uma liderança dos funcionários se aliou a uma liderança dos jagunços, queriam fazer uma parceria para derrubar os dois empresários e ficar com a riqueza deles. Assim poderiam distribuir para todos, não só o dinheiro, mas também as terras.
Uma aliança entre funcionários e jagunços era o maior medo dos empresários, eles preferiam perder tudo um para o outro do que para os seus subordinados. Porém a aliança dos subordinados revolucionários se fortalecia cada dia mais. O horizonte era muito favorável para eles.
Nem todos aderiram ao movimento dos subordinados revolucionários. Tinham mais duas alas: os que estavam ao lado dos empresários e a dos que ainda tinham a ideia de uma negociação ampla, esses não queriam ver o derramamento de sangue dos seus iguais.
O cenário estava apresentado de um lado os empresários cada um com seus apoiadores, do outro lado os jagunços e os funcionários e no meio os moderados. Nessa intriga os empresários se juntaram deixando suas diferenças de lado, não havia paz entre eles era penas um movimento para defesa própria.
A guerra se iniciou e os funcionários e os jagunços começavam a ter vantagens, logo tomariam o poder por serem mais preparados. Os empresários viram essa situação e trouxeram os moderados para conversar. Venderam uma ideia de que esse radicalismo não levaria a nada, estavam todos morrendo e no fim ninguém ganharia com essa briga toda. Colocavam-se como vítimas de uma situação causada por eles.
Os moderados queriam uma conversa com os subordinados revolucionários, conseguiram uma reunião e nela iriam apresentar um plano para a paz geral. Na reunião o diálogo começou truncado, os moderados queriam que todos os jagunços e funcionários abrissem mão da posse das terras e da riqueza em troca de aumentos de salário e de benefícios. Caso não houvesse acordo a polícia seria acionada e haveriam muitas mortes.
Os moderados vendiam um cenário catastrófico e diziam que seria impossível manter uma estrutura tão grande sem o aporte financeiro dos empresários. Todos ouviam aquela tentativa de pacificar a situação atentamente.
Os líderes dos jagunços e dos funcionários falaram e manter a guerra, iriam segurar até mesmo se a polícia viesse para cima. Não havia possibilidade de darem passos para trás nesse momento. Estavam muito próximo de tomar o poder para si e voltar ao formato cooperativo que existia antes.
O debate foi acalorado e a entrada dos moderados nas conversas deixou muita gente preocupada, o cenário pintado era de muita luta e muita morte. Claro que os moderados levaram o discurso dos empresários de forma ingênua para dentro do movimento dos subordinados revolucionários.
O medo tomou conta de algumas pessoas que já não estavam tão dispostas a guerrear, acabou rachando o movimento dos subordinados revolucionários. Do outro lado os empresários aguardavam um desfecho positivo do debate com os moderados.
Por conta do racha entre os subordinados uma nova liderança emergiu, uma que queria utilizar um dos empresários contra o outro. A ideia era colocar eles novamente em briga para assim enfraquecer um dos lados. Iriam usar o poder a seu favor.
Essa ideia ganhou força e por fim definiram que essa seria a linha de atuação, se aliar com um dos ricos e derrubar o outro. Logo após a derrubada de um deles os subordinados acessariam parte da riqueza e poderiam usá-la para tomar a outra parte para si.
A nova liderança dos subordinados revolucionários tentou uma conversa com um dos empresários, através dos moderados. Conseguiram marcar uma reunião, o empresário já começava a se articular para tentar seduzir eles logo de cara. Ele sabia que se não entrassem em acordo poderiam entrar em acordo com o seu opositor.
A conversa aconteceu na mansão do empresário, regada a muito vinho e comilança. Sentaram e definiram qual seria a estratégia de atuação, o empresário fez algumas pontuações e colocou o acordo na mesa para assinatura. Todos chegaram a um entendimento que o acordo era uma boa, nem conversariam com o outro empresário. Definiram ali mesmo o futuro da guerra, agora alinhariam as forças e iriam para cima tomar a outra fração do poder.
Nos bastidores o empresário, que andava junto com os subordinados revolucionários, já articulava um golpe em seus aliados. No front de batalha colocaria a polícia para atacar os jagunços e os funcionários, somente após a tomada das riquezas do seu opositor.
Do outro lado vinham os defensores do empresário que estava sob ataque, alguns jagunços e funcionários que se colocavam em favor da riqueza dele. A guerra aconteceu e uma matança entre iguais se deu. Muita gente morreu em nome do lado de um dos empresários que defendiam. Os empresários esperavam tudo acontecer para ver como atuariam.
A guerra caminhava para um desfecho e os subordinados revolucionários estavam prestes a tomar as riquezas do empresário opositor. Tomaram a maior parte das terras e estavam a caminho da mansão do empresário. Quando chegaram lá não encontraram ninguém, ele já havia fugido e estava fora do país. Entregou tudo de bandeja e fugiu como um covarde.
Os jagunços e funcionários revolucionários comemoraram a conquista, abriram os vinhos que haviam na casa, comeram tudo o que podiam comer e começaram a planejar a ofensiva contra o empresário antes aliado deles.
No momento que articulavam um plano o empresário já havia colocado o dele em prática. Havia conseguido tomar a fração da riqueza do seu adversário e agora precisava se livrar dos revolucionários que se voltariam contra ele. Acionou os policiais para matar as principais lideranças do movimento dos subordinados. Em seguida mataram as principais lideranças dos moderados.
Com os lideres aniquilados os movimentos se enfraqueceram, os moderados como forma de desespero tentaram se realinhar com os revolucionários, criando uma nova frente de lideranças. Porém já era tarde, a polícia havia tomado conta da situação e segurou os ataques que foram tentados. Em algum tempo o movimento se enfraqueceu e quem sobrou na nova liderança foi preso.
A derrotada estava decretada e o empresário, antigo aliado dos revolucionários, tomou conta de todas as terras da cidade. Os funcionários voltaram a trabalhar e os jagunços a fazer a segurança, no ar ficou uma sensação de que o grande capital era invencível. A vitória popular virou algo fora de cogitação e a maioria das pessoas voltava a se subordinar a uma pessoa só.
A luta esteve prestes de se tornar vitória, porém o grande erro de se alinhar com o inimigo cobrou um preço pesado.
