Encontro-me a milhares de quilômetros da pátria amada, nesse novo trabalho em que me lancei — um dos sonhos da minha vida —, mas não deixo de lembrar com muito carinho das coisas preciosas que deixei, ao menos por ora, no Brasil. Entre elas, o Café Literário, que acompanho com interesse todos os dias e que aquece meu coração saudoso.
Foi pelo Café que soube, recentemente, da partida de Ladyce West, cujas belas recitações de poesia eu acompanhava em sua página pessoal. Por intermédio de minha admirada Fabiana Saka, uma das brilhantes autoras de nossa editoria, Ladyce estava quase chegando às páginas do Café Literário, onde certamente brilharia. Infelizmente, não houve tempo.
Logo me perguntei o que seria dos grupos de leitura que Ladyce coordenava havia muitos anos, conforme me contou Fabiana, para um dos quais eu até havia sido convidada e ao qual teria aderido com grande alegria, não fosse a distância em que então me encontrava do Rio de Janeiro, ampliada ainda mais nos últimos meses. Maior foi minha alegria ao saber, também por Fabiana, que os principais grupos de leitura criados e conduzidos por Ladyce ao longo dos anos, o Papa Livros e o Ao Pé da Letra, acabaram se unindo em um só: o Ao Pé do Livro, fundado no dia 12 de abril, em uma charmosa cafeteria de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
O grupo contou com a adesão do também autor do nosso Café Literário, Daniel Marchi, poeta, escritor e editor, que há tempos buscava um grupo de leitura de que pudesse participar, a fim de deixar de ser um leitor solitário e refinar o próprio olhar. Segundo ele, a escolha o fez imediatamente feliz, tão logo percebeu o nível das demais integrantes do grupo, no qual é, por enquanto, o único homem.
“É uma responsabilidade imensa estar em meio a leitoras tão qualificadas. Fui muito bem recebido, ainda mais tendo sido trazido pela nossa Fabiana Saka”, disse Daniel.
Fabiana, por sua vez, ressaltou a continuidade do trabalho de Ladyce West: “Estivemos lá para honrar o legado dela, na certeza de que anos de dedicação sincera e abnegada à leitura e à difusão cultural continuarão rendendo frutos pelos anos que virão.”
Assim, entre a saudade e a permanência, o Ao Pé do Livro nasce não apenas como um novo grupo, mas como a continuidade de uma história construída com delicadeza, constância e amor aos livros. Em um tempo marcado pela pressa e pela dispersão, a reunião de leitores em torno da literatura reafirma o valor da escuta, da partilha e da formação de vínculos duradouros pela palavra. Se Ladyce West já não poderá chegar, em vida, às páginas de Notibras, seu legado permanece vivo: nas leituras que inspirou, nos encontros que ajudou a semear e nas novas mãos que agora o conduzem adiante.
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Cecilia Baumann, especial para o Café Literário
