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Lei do ‘quem tem mais’ decide quem entra em coma e quem fica solto

O que deveria ser uma noite comum de confraternização entre jovens transformou-se em um cenário de horror na Rua 6 de Vicente Pires, no Distrito Federal. Na última quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, uma interação banal motivada pelo arremesso de um chiclete escalou para uma agressão brutal, deixando um adolescente de 16 anos entre a vida e a morte. O caso, que choca pela futilidade do motivo, mobiliza as autoridades e levanta debates sobre a violência desmedida em conflitos cotidianos.

O estopim da confusão ocorreu quando Pedro Arthur Turra Basso, um piloto de automobilismo de 19 anos, jogou um chiclete em direção a um grupo de amigos. O gesto, descrito pelo agressor como uma “brincadeira” habitual entre seu círculo social, foi interpretado como uma ofensa pelo adolescente. Após um rápido confronto verbal, a situação evoluiu para agressão física. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que os dois trocam socos, culminando em um golpe que fez o menor perder o equilíbrio e bater a cabeça violentamente contra a porta de um veículo estacionado.

O impacto foi devastador. O jovem caiu imediatamente desacordado e, segundo relatórios médicos, sofreu um traumatismo craniano severo seguido de uma parada cardiorrespiratória que durou cerca de 12 minutos. O socorro emergencial o encaminhou para uma neurocirurgia de urgência para drenagem de um coágulo cerebral, mas o quadro clínico permanece crítico. O adolescente está atualmente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde luta pela sobrevivência em uma situação de extrema gravidade.

Nesta segunda-feira, 26 de janeiro, o advogado da família da vítima, Albert Halex, confirmou que o jovem encontra-se no nível 3 da Escala de Glasgow. Esta é a pontuação mais baixa possível na escala médica, indicando um estado de coma profundo, onde o paciente não apresenta qualquer resposta a estímulos físicos. No domingo, uma tentativa de reduzir a sedação resultou em espasmos, forçando a equipe médica a retomar o protocolo de coma induzido para proteger as funções cerebrais ainda existentes.

Enquanto a vítima luta pela vida, o desdobramento jurídico do caso gera indignação. Pedro Turra, preso em flagrante pela 38ª Delegacia de Polícia logo após o ocorrido, foi liberado no sábado (24) após audiência de custódia. A Justiça do Distrito Federal concedeu liberdade provisória ao piloto mediante o pagamento de uma fiança de R$ 24.315,00, valor correspondente a 15 salários mínimos. A decisão judicial impõe medidas cautelares, proibindo o agressor de deixar Brasília e exigindo seu comparecimento a todos os atos processuais.

Em seu depoimento à Polícia Civil, que durou menos de quatro minutos, Pedro alegou que não teve a intenção de causar danos permanentes. O piloto narrou que se sentiu desafiado após o adolescente dizer que “o quebraria na porrada” caso o chiclete o atingisse. A defesa sustenta a tese de que o resultado foi uma fatalidade decorrente da queda, e não uma tentativa deliberada de homicídio, buscando classificar o ato como uma exaltação mútua que saiu do controle.

Por outro lado, a família e os amigos do menor realizam vigílias em frente ao hospital e clamam por justiça. A liberação do agressor sob fiança foi recebida com revolta, com manifestantes questionando a proporcionalidade da pena diante da gravidade das lesões. O Ministério Público acompanha o inquérito para avaliar se o crime pode ser tipificado como dolo eventual — quando o agente assume o risco de matar ao desferir golpes desproporcionais por um motivo fútil.

A investigação também se estende aos espectadores do conflito. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram que várias pessoas presenciaram a briga e escolheram filmar a cena com celulares em vez de intervir ou prestar socorro imediato. A Polícia Civil informou que está identificando esses indivíduos, que poderão ser indiciados pelo crime de omissão de socorro, conforme previsto no Código Penal Brasileiro.

Testemunhas ligadas ao agressor tentaram alegar que o adolescente estaria manuseando um “canivete” antes da briga, porém, as imagens de segurança analisadas até o momento não corroboram essa versão. O foco das autoridades permanece na análise técnica dos vídeos e nos laudos médicos que detalham a extensão dos danos neurológicos sofridos pelo jovem de 16 anos.

Atualmente registrado como lesão corporal de natureza gravíssima, a tipificação do crime ainda pode ser alterada dependendo da evolução clínica da vítima nas próximas 72 horas, consideradas cruciais. O episódio deixa uma marca sombria em Vicente Pires, servindo como um alerta trágico sobre como a falta de controle emocional e a banalização da violência podem destruir vidas em questão de segundos.

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