A primeira vez que vi o Rogério fiquei impressionado por sua coragem. É que ele estava prestes a enfrentar o Afrânio, justamente o garoto mais forte da escola, e que tinha o costume de ameaçar quem cruzasse o seu caminho. Um valentão. No entanto, um valentão com músculos de verdade.
Rogério era pequeno, só podia perder, mas não correu do pau. Que apanhasse! Todo mundo apanha um dia. Mas aquilo me soava um tremendo desatino e, pior, ninguém parecia se importar com a surra que o miúdo iria levar.
Eu, que mal havia entrado na escola, sabia da fama do Afrânio e, por isso mesmo, o evitava na hora do recreio. Fiquei imaginando o que teria acontecido para que aquele combate desproporcional pudesse se dar. A diferença de tamanho era tanta, que eu, que era bem menor do que o Afrânio, aparentava ter dois ou três anos a mais do que o Rogério, que, depois, soube ter nascido alguns meses antes de mim.
Desprovido de bravura para me meter naquela contenda, meus olhos corriam em busca de um adulto. Cadê a diretora Maria Lúcia, cuja pouca paciência com desordem era notória? Nem sinal dos professores Leandro, Elma, Dolores, Lucimara, Henrique, Victor e de outros que não me recordo dos nomes. E os gritos de euforia, de expectativa, que anteviam o massacre que, não tardaria, iria acontecer diante das vistas que se mantinham arregaladas para não perder nem sequer um átimo.
Não sei você, mas não suporto ver brigas. É algo que me dói como se fosse eu o que apanha. Não me parece justo, e creio que não é.
— Ah, mas ele mereceu!
— Ninguém merece.
— E quem mandou provocar? Que ficasse quieto!
— E isso por acaso dá o direito do outro esmurrar o nariz do infeliz?
— Isso não é problema meu!
— O problema é de todos nós.
— Meu é que não é! E sai da frente, porque não quero perder nem um tabefe, por menor que seja.
Mal voltei os olhos para o círculo formado, Afrânio desferiu um murro na cara do pobre Rogério, que caiu sentado. Os olhos vermelhos de ódio pareciam mandar o franzino se erguer. Não tardou, novo soco, agora na barriga, que o fez curvar. Afrânio completou com um murro bem no queixo do moribundo, que, dessa vez, não teve jeito. Caiu desfalecido.
O silêncio, de repente, tomou conta do pátio da escola, como se todos se culpassem por aquela situação. Como é que permitiram tamanha covardia? Até o grandalhão pareceu desconcertado com o que acabara de fazer. Imaginei que ele tivesse pensado, mesmo que por mísero segundo, em acudir quem acabara de nocautear. Não o fez. Fugiu, como é próprio dos covardes.
Rogério, naquele instante, se transformou no herói improvável de todos ou, pelo menos, de boa parte dos que presenciaram aquele massacre. Senti vontade de ser seu amigo naquele mesmo dia. No entanto, fraco que sempre fui, a iniciativa partiu dele na semana seguinte, quando eu estava sem grupo para um trabalho de matemática.
— Ei, tudo bem? Sou o Rogério. Vi que você está sem grupo. Quer entrar no nosso.
— Oi. Quero sim.
— Qual é o seu nome?
— Carlos.
Bem, e foi assim que começou a nossa amizade, que dura até hoje. E lá se vão 42 anos.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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