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Leonal estava destinado a ser a última flor da sofrência

Leonel pertencia a uma ilustre estirpe de intérpretes de música-pra-dor-de-corno. Mas, tadinho, estava destinado a ser a última flor da sofrência.

Já seu avô era o puro suco do gênero; diziam que teria sido parceiro de copo e de chororô de Lupicínio Rodrigues, príncipe da Cornualha (se não foi, devia ter sido), nas mesas dos bares de Porto Alegre.

O pai, por sua vez, levava uma vida dupla. Bem casado, três filhos (Leonel era o caçula), desdobrava-se para sofrer por amor e dar alguma verossimilhança aos sambas-canções que interpretava. O zelo profissional levou-o a se envolver com Mafalda, a rainha do cabaré – e o imbecil se apaixonou. Certa noite, enlouquecido, deu uma surra de criar bicho em um estancieiro que ficara algumas horas com sua musa. Na noite seguinte, os capangas do coronel aplicaram-lhe um corretivo ainda maior, e ele não resistiu.

Leonel, aos 20 anos, enveredou pelo estilo de música sofredora que consagrara o avô e o pai. Só que o físico não ajudava: ele era alto, forte, feições perfeitas, sorriso luminoso, o tipo de cara que destroçaria corações femininos, mas nunca levaria um par de guampas. Fingia sempre ciúmes, sua condição de intérprete do gênero o obrigava a isso, mas as parceiras encaravam-no, incrédulas: só uma louca trocaria um macho daqueles por uma aventura!

O sucesso do rapaz com a mulherada incomodou o público (masculino) dos bares em que ele se apresentava – e, por tabela, os donos dos estabelecimentos. Afinal, todos aqueles que tentavam embalar suas mágoas ao som das canções de Odair José, Amado Batista e do imortal Lupicínio queriam estabelecer alguma cumplicidade com o cantor, e aquele deus grego no palco, sempre sorrindo, com uma testa evidentemente à prova de chifres, não colaborava. Resultado, os que sofriam por amor deixaram de comparecer enquanto ele estivesse por ali, e os donos dos bares, um após outro, trataram de despedi-lo.

Foi isso que levou Leonel a desistir da sofrência raiz. Tornou-se vendedor de carros usados e alcançou grande sucesso. Nos fins de semana, porém, tranca-se em casa, coloca no aparelho de som os velhos LPs de Lupicínio e os ouve, acompanhados por talagadas de cachaça, enquanto pensa em um verso do poema Pneumotórax, de Manuel Bandeira: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.

E depois parafraseia, em voz alta, o derradeiro verso, enquanto as lágrimas descem por seu rosto pra lá de atraente:

– Já que não dá pra ser intérprete de música pra dor de corno, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino!

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