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Leopoldo e o mendigo

Leopoldo era do tipo que não levava desaforo para casa, mesmo que aquilo lhe custasse rusgas permanentes com, por exemplo, um vizinho de porta. Que fosse daquele jeito, o sujeito não parecia se importar, apesar das aflições cada vez mais perenes, que chegavam sem qualquer cerimônia e se instalavam no coração.

O sujeito sabia que aquela situação não era amiga da saúde e, por isso, buscou algumas alternativas para evitar descontroles por bobagens. Que guardasse energia para quando fosse realmente necessário como, por exemplo, salvar o planeta de um improvável ataque alienígena ou, então, enfrentar o ex-boxeador Popó, desde que fosse recompensado com alguns milhões para valer a pena a surra que iria levar.

Não podemos dizer que Leopoldo não tenha tentado, até porque Gabriela, namorada com longo histórico de paciência, testemunhou alguns fatos que, outrora, seriam estopins para crises histéricas do amado. Mas o fato que mudou definitivamente o jeito do rapaz de levar a vida aconteceu por acaso e, talvez pelo inusitado, vale aqui mencioná-lo.

Estava o casal passando pelo Setor Comercial Sul, em Brasília, quando um mendigo, sentado na calçada, esticou a mão e pediu ajuda. Leopoldo, que não era de questionar necessidades alheias, abriu a carteira, mas não encontrou trocado.

— Meu amigo, vou ficar te devendo. Só tenho uma nota de cem.

O pedinte sorriu e, percebendo que daquele mato não saía cachorro, aguardou o próximo transeunte. Nisso, Leopoldo, assim que deu as costas para seguir seu caminho de mãos dadas com a namorada, arregalou os olhos e exclamou:

— Não pode ser!

— O que foi, meu amor?

— Eu conheço aquele cara!

Leopoldo retornou e, diante do necessitado, perguntou:

— Camilo, é você?

Pego de surpresa, o homem levou alguns segundos encarando Leopoldo.

— Leolpoldo! Não é possível! É você mesmo?

— Sim, Camilo! Sou eu! Mas o que você está fazendo aqui? Olha, se você estiver mesmo precisando, tá aqui os cem reais.

— Que nada! Pode ficar com o seu dinheiro.

Camilo se levantou e abraçou o amigo.

— Leopoldo, e quem é a gatinha?

— Ah, Camilo! Essa é a Gabriela, minha namorada.

Apresentações feitas, Camilo disse que estava fazendo laboratório para viver um mendigo em um curta que seria filmado no mês seguinte.

— Que loucura!

— Um pouco, Leopoldo. Mas vida de ator é assim mesmo. Aliás, vocês já almoçaram?

— Ainda não, mas…

— Então, estão convidados para almoçarem comigo. Já ensaiei muito por hoje.

E lá foram os três para um restaurante ali perto. E o engraçado mesmo foi na hora de pagar a conta. O Camilo nem deixou o colega tirar a carteira do bolso.

— Nananinanão, Leopoldo! Vocês são meus convidados. Além do mais, faturei bem hoje. Estou até pensando em largar a vida de ator pra virar mendigo profissional.

Por sorte ou destino, Camilo não trocou de profissão. O curta foi um sucesso, ele foi requisitado para viver o protagonista de um longa, pois um famoso diretor de cinema ficou impressionado com a sua atuação carregada de emoção e veracidade ao dizer o derradeiro texto antes dos letreiros começarem a subir:

Sei que muitos de nós gostaríamos de enaltecer uma das qualidades mais nobres que uma pessoa pode possuir: o humor. Nunca perca seu humor, pois, apesar das perturbações que a vida nos oferece, com humor encontraremos mais soluções e menos problemas. O mundo é muito rude e, para vencê-lo, devemos mudar a estratégia.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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