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Leviatã, o mostro do mar que trará o caos

Antes que o mundo tivesse margens bem definidas, antes que o caos fosse separado em dias e nomes, a Bíblia já insinuava que algo se movia nas profundezas. Algo antigo, escuro e indomável. Seu nome atravessou séculos como um sussurro de temor e fascínio: Leviatã.

Na mitologia bíblica, Leviatã não é apenas uma criatura monstruosa; ele é a personificação do caos primordial, das forças que resistem à ordem divina. Surge sobretudo nos livros poéticos e proféticos do Antigo Testamento, onde o imaginário se permite respirar para além da narrativa histórica. Não se trata de zoologia sagrada, mas de símbolo.

O Livro de Jó oferece o retrato mais vívido. No capítulo 41, Deus interpela Jó com uma pergunta que é, ao mesmo tempo, desafio e lição: “Poderás tu pescar o Leviatã com anzol?” A descrição que se segue é quase cinematográfica: escamas impenetráveis, hálito que solta fogo, força que nenhuma lança consegue domar. O recado é claro — Leviatã existe para lembrar ao homem os limites de sua pretensão.

Nos Salmos, a criatura assume outro papel. Ali, Leviatã é derrotado por Deus, despedaçado como prova do triunfo da ordem sobre o caos: “Esmagaste as cabeças do Leviatã e o deste por alimento aos monstros do deserto” (Salmo 74). Já em Isaías, o monstro retorna como promessa escatológica: no fim dos tempos, Deus novamente enfrentará o Leviatã, a serpente veloz, a serpente tortuosa. O mal, ainda que antigo, não é eterno.

Essa imagem não nasce no vácuo. O Leviatã bíblico dialoga com mitologias mais antigas do Oriente Próximo. No épico babilônico Enuma Elish, o deus Marduque derrota Tiamat, o dragão do caos aquático, para criar o mundo. O combate cósmico entre divindade e monstro marinho era uma linguagem comum para explicar a passagem do caos à ordem. A Bíblia herda essa gramática simbólica, mas a resignifica: não há luta entre deuses rivais, mas a afirmação absoluta de um único Deus soberano.

Com o tempo, Leviatã também foi reinterpretado. Para alguns teólogos medievais, tornou-se imagem do próprio Satanás, senhor das profundezas espirituais. Para outros, representava impérios opressores — reinos que, como monstros marinhos, emergem para devorar povos. Na filosofia política moderna, Thomas Hobbes tomaria emprestado o nome para batizar o Estado absoluto, esse “monstro necessário” que mantém a ordem à custa do temor.

Mas talvez a leitura mais persistente seja a interior. Leviatã como aquilo que habita as águas profundas da alma humana: o medo ancestral, o desejo de controle, a violência latente. Domá-lo não é tarefa humana. Como no Livro de Jó, a lição permanece desconfortável: há forças que não se vencem com espadas, nem com discursos, nem com certezas.

No fim, Leviatã continua submerso — não morto, não esquecido. A mitologia bíblica não o elimina; ela o contém. E talvez seja esse o aviso mais atual: o caos não desaparece. Ele apenas aguarda, paciente, nas profundezas, até que alguém se esqueça de que nem tudo pode ser pescado com anzol.

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