A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na posse do novo presidente do Chile, José Antonio Kast, gerou comentários apressados de quem tenta reduzir a política internacional a uma simples disputa ideológica. Não se trata disso. Ao longo de sua trajetória, Lula já demonstrou inúmeras vezes que os interesses do Brasil estão acima de qualquer alinhamento partidário ou divergência política. Em diversas ocasiões, o presidente brasileiro dialogou e manteve relações institucionais com governantes de diferentes orientações ideológicas, sempre priorizando a diplomacia e o papel do Brasil no cenário internacional.
A decisão de não comparecer à cerimônia, portanto, não se explica pelo fato de Kast ser um presidente identificado com a extrema direita. O motivo foi outro: entre os convidados estava também o principal adversário político de Lula no Brasil, Flavio Bolsonaro. Em um evento diplomático dessa natureza, a presença simultânea de ambos poderia deslocar o foco da cerimônia e transformá-la em palco de disputa política brasileira, algo que não interessa nem ao Brasil nem ao Chile.
Além disso, há um elemento de princípio na postura adotada pelo governo brasileiro. O Brasil é um país que exige respeito de todas as nações, inclusive de potências como os Estados Unidos. Essa posição de soberania e dignidade diplomática precisa ser mantida em qualquer circunstância. Se o Brasil cobra respeito de grandes potências, naturalmente espera o mesmo tratamento de países amigos da região. Nesse sentido, a decisão de Lula foi também um gesto de afirmação institucional: a política externa brasileira não se submete a constrangimentos nem a provocações, venha de onde vier.
