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‘Mar…’ aparece em fotos mas some na lembrança de todos

Foi uma prima distante, que me chamou a atenção para o fato. Um casamento, evento que agora ocorria raramente, havia nos reunido na cidade comum à família, na qual boa parte dos nossos nascera ou, se não, ao menos era local de referência em férias, batizados, casamentos e enterros. Era uma cidade pequena, na Zona da Mata, em Minas Gerais, onde nossos antepassados, pobres imigrantes europeus, haviam fincado raízes e, desde então, como numa progressão geométrica, a grande árvore genealógica foi se desenvolvendo. Éramos, aquela prima e eu, a quarta geração, já nascidos em capitais, mas, dentre trinta e tantos descendentes na mesma faixa etária, ainda tínhamos naquele local um porto seguro, centro de tantas boas memórias, de contato com os avós e tios-avós, as brincadeiras da infância e as aventuras da adolescência.

Vários chegaram na véspera, uma sexta-feira qualquer, para o casamento de um primo com uma moça local que se daria no sábado, ao fim da tarde. Depois, uma grande festa, que se estenderia madrugada adentro e, após o almoço do domingo, alguns ainda nos encontraríamos para as últimas conversas antes da viagem de regresso. A prima e eu, hospedados no mesmo pequeno hotel com nossos respectivos cônjuges e filhos, havíamos nos reunido no jantar em casa da avó dela, que era prima de meu avô.

Entre conversas e recordações, uma das tias-avós presentes sacou de um velho armário um belo álbum de fotografias, caprichosamente encadernado, onde várias gerações desfilavam diante de nós. As páginas iniciais traziam fotos de uma gente sisuda e cujos olhos mostravam bem o quanto a vida deles não fora nada fácil. Avançando nas páginas, as feições se tornavam mais leves, um ou outro sorriso para as antigas câmeras começavam a aparecer e íamos identificando as pessoas e os eventos pelas anotações que eram feitas sob as imagens, as quais, pelo estilo e caligrafia, mostravam que os registros foram feitos ao longo das gerações.

Numa delas, onze pessoas vestidas como no início do século XX, em frente à varanda de uma casa de fazenda, dos quais eu indaguei e soube serem meu bisavô e seus irmãos, dentre os quais estava também o bisavô de minha prima.

“Mas essa história não confere”, disse, surpreso, à minha tia-avó. “Meu avô sempre contava que o pai dele tinha nove irmãos. Não dez. Tenho certeza disso.”

A minha tia-avó me olhou curiosa e respondeu: “ah, meu filho, disso eu não sei. Desses onze na foto eu só conheci seis. Os demais morreram ou se mudaram daqui. Deixa-me ver de quais eu lembro bem…”

E a velhinha pôs-se a enumerar nomes, profissão e detalhes sobre a vida daquela gente antiga, olhando-os através das pesadas lentes de seus óculos de tartaruga e, de vez em quando, parava para calcular mais ou menos a idade que cada um devia ter por ocasião da fotografia. Nisso, minha prima chamou a avó dela, que veio confirmar a informação que eu tinha – de que, naquela geração, eram dez irmãos ao todo. E, com a ajuda de outros dois parentes mais velhos, todos no retrato foram identificados, exceto uma moça alta, a última à direita, magra, com um delicado chapéu e um vestido esvoaçante.

Teria sido a esposa de um deles? Uma parente presente no local por ocasião da chegada do fotógrafo para fazer aquela imagem? Restou a dúvida, que intrigou vários dos presentes.

Resolvemos remover, delicadamente, a fotografia daquele álbum, pois abaixo dela não havia outra informação senão a nota, com fina caligrafia, indicando serem os “irmãos Zanella, outubro de 1924”. Talvez atrás da foto, no papel cartonado, houvesse algum outro detalhe. E foi exatamente o que encontramos: uma pequena legenda, a bico de pena, registrava: “Irmãos Zanella. Da esquerda para a direita: Marco, Oscare, Giorgio, Luigia, Giovanna, Constanza, Américo, Giovanni, Paschoalino, Isolina e Mar…” O nome da última à direita, justamente a moça misteriosa, estava borrado pela cola no verso do retrato, que deve ter atingido a tinta da legenda ainda meio fresca, ou a liquefez e deteriorou quando foi presa ao álbum. Mas então, quem era “Mar…”? Que irmã de nossos bisavôs era aquela, de que nunca havíamos ouvido falar?

Perguntamos a todos os mais idosos presentes naquela pequena reunião familiar num antigo sobrado em frente à velha estação. Nenhum sabia ao certo. Uns insistiam na história dos dez irmãos, enquanto outros admitiam poder ter havido onze. Mas quem era aquela última? Quais eram seus descendentes dentre aquele grupo agora reunido? Ninguém pôde responder a estas questões. O fascinante era que aquela moça, de olhar meio distante, ainda aparecia em outras fotos do álbum, ora um pouco mais nova, ora ligeiramente mais velha, até as imagens começarem a entrar pelos anos de 1930, quando não a achamos mais. Nenhum detalhe nas anotações sob cada foto. E também não íamos ficar tirando outras fotografias do álbum, pois corriam o risco de se estragarem.

De repente, numa imagem que mostrava um grupo familiar em volta de nosso tio-bisavô Giorgio que foi para a 2.ª Guerra Mundial, lá estava de novo a misteriosa familiar, com o mesmo estilo de vestido da primeira foto. Depois, surpreendentemente, aparecia na imagem tomada num casamento de dois antepassados nossos, ocorrido nos anos 50, na qual se viam vários daqueles fotografados quase trinta anos antes, sob o título de “Irmãos Zanella”. Todos haviam envelhecido pelo tempo e pelos duros trabalhos, mas a irmã sem nome se conservava estranhamente jovem e bastante parecida com a primeira aparição. Afinal, o que significava isso?

Todos ficaram muito atônitos, ainda mais porque, depois de curto hiato, a mulher voltava a aparecer – pelos anos de 1960 e 1970, até a última foto do álbum, que retratava um comício na campanha para a prefeitura da pequena cidade, em meados de 1972, onde ela nitidamente se alinhava aos demais presentes na carroceria de um caminhão, onde um dos primos mais velhos de minha mãe aparecia ao centro, em campanha da qual saiu vitorioso naquele ano, ao que sei a única incursão de nossa família na política local.

Aquela mulher remota certamente era um de nossos familiares, sempre presente aqui e ali nos importantes eventos registrados naquele álbum, mas nada de muito objetivo os demais sabiam dela. Os que restavam vivos não se recordavam. Aos que já haviam morrido, não podíamos perguntar…

Confesso que fiquei com aquela imagem na cabeça, imaginando quem exatamente seria ela, e por que sua história havia sido deliberadamente ocultada das outras gerações, pois nenhum relato oral a incluía, nenhuma nota do álbum a revelava, enquanto os anos pareciam não ter surtido qualquer efeito sobre ela que conservava sempre com o mesmo jeito, o mesmo olhar, o mesmo mistério.

Minha prima, em tom de brincadeira, me disse: “Quem sabe a tia-bisavó não vem no casamento amanhã? Talvez já esteja até na cidade, ou jamais tenha saído daqui. Se ela vier, a gente mata a curiosidade.”

Um estranho arrepio percorreu meu corpo naquela hora e procurei mudar de assunto, elogiando o café ou algum doce servido na sobremesa.

Mas, no dia seguinte, olhei cuidadosamente entre as fileiras de bancos da igreja matriz na hora da cerimônia, dentre os presentes na festa realizada no clube da cidade, para ver se, no meio dos convidados, não conseguia distinguir a tia-bisavó desconhecida e ter com ela alguns minutos de conversa que me pusesse em contato com meus ancestrais desaparecidos, os quais, de teimoso, eu procuro sempre manter vivos.

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