A saudade não chega em tumulto,
vem suave, descalça,
com passos de bruma
e voz de lembrança adormecida.
Senta-se ao meu lado
quando a noite se alonga
e o silêncio aprende a soletrar meu nome.
É um perfume antigo,
cheiro de abraços que se perderam,
de risos guardados em cofres do tempo,
de promessas que ainda respiram
mesmo sem serem ditas.
A melancolia,
companheira fiel de alma profunda,
não é dor,
é memória com pulsar,
é eco de verdades vividas
que recusaram morrer.
Há dias em que a alma retorna,
não por fraqueza,
mas porque deixou atrás
fragmentos de luz
que ainda a chamam.
Sinto falta do que fui,
do que amei,
estranho até o que já não sou.
E nesse rito sagrado da saudade,
compreendo:
viver é também aprender a despedir-se
sem apagar o amor.
A saudade escreve com tinta invisível,
mas cada letra pesa,
cada palavra envolve,
cada memória pulsa docemente
como ferida que não deseja fechar,
porque guarda história.
E ainda assim, agradeço.
Pois só quem amou sem medida
conhece a melancolia,
e só quem sentiu profundamente
consegue converter lembrança
em poesia.
Não fujo dela.
Deixo-a permanecer.
Porque em sua tristeza serena
habita a prova mais pura
de que meu coração esteve vivo,
que amei intensamente
e ainda assim…
sabe florescer.
