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MARCOS FAERMAN, O REPÓRTER DAS PALAVRAS APRISIONADAS

Perdi o sono no final da madrugada ao lembrar-me do único semestre de aulas que tive com o jornalista e mestre absoluto, Marcos Faerman, na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em SP. Depois… bem, veio a ditadura e no final dos 70 “correram” com ele: “Perigoso comunista”. Mas nunca me abandonou.

Interessante perceber o anacronismo (e o cinismo) da sociedade deste nosso país. Sigo em busca do Sol na esperança de que 1979 jamais saia de minhas memórias naquele final de ditadura militar/cível/empresarial; caminho pelas ruas em 2026, como caminhava pelas ruas de São Paulo/Sampa naqueles anos com o sonho do jornalismo feito um trabalhador/repórter.

Saudades do Marcão, o insuperável repórter Marcos Faerman.

AS PALAVRAS APRISIONADAS

“[…] Nenhum jornalista brasileiro chegou tão perto da emoção nacional como ele. O seu texto tem sido para nós o estabelecimento dos ritmos do coração, o registro do som que bate nas veias da nossa gente, uma visão dolorida do real, mas também poética e certeira”.
* (Jacob Klintowitz, jornalista e crítico literário)

É preciso saber da obra de Faerman. Os textos estão recolhidos e editados no livro fundamental “Com as mãos sujas de sangue”, Global Editora,
(…)

O REPÓRTER E SUA PERPLEXIDADE

A realidade é a natureza e os homens a matéria-prima das narrativas.

Como entender o mundo que nos rodeia? Como entender os conflitos, as mentiras aparentes, as verdades ocultas? Que instrumentos usar na hora da revelação?

Saindo da abstração, o repórter tem diante de si a realidade. A realidade pode ser um homem encolhido à beira de um rio. O repórter é um ser em disponibilidade. Esta é quase que sua essência. Ele está à disposição dos ‘chefes’ do jornal em que trabalha. Cumpre horários, ordens. Num dia qualquer uma hora qualquer é mandado para um lugar qualquer. É sempre assim. Ele poderá ter diante de si este homem ajoelhado no barro, olhando para um rio. O repórter olha para este homem. Procura saber sua história; e depois narra.

O contexto:- a vida de uma aldeia à beira de um rio corroído pelo mercúrio que mata os peixes que alimentam os homens.

O repórter cavuca, observa, apura. O repórter recebe ordens da chefia de redação. O repórter diante da pauta. Os problemas de um Estado diante da poluição. O que dizem as autoridades. O que diz o povo. O que dizem os industriais.

E as técnicas do repórter?

O papel, a caneta Bic, o gravador. Os olhares das pessoas para ele ¬ como o olhar daquele homem ajoelhado à beira do rio, não dá para esquecer. Um homem de roupas rasgadas, um pescador, que fala com uma linguagem confusa como o vento que bate na água. Uma canoa parada no rio e uma rede. O olhar do repórter que cai em suas mãos.

Mãos cortadas pelo barro.

OS DIREITOS DO REPÓRTER E DO JORNAL

A lembrança, diante daquele homem, das perguntas de outro repórter, das inquietações de outro repórter diante de outra realidade.

Parece-me curioso, para não dizer obsceno e totalmente aterrorizante que pudesse ocorrer a um grupo de seres humanos reunidos através da necessidade e do acaso, e por lucro, numa empresa, num órgão jornalístico, intrometer-se intimamente nas vidas de um indefeso e arruinado grupo de seres humanos, uma ignorante e abandonada família rural, com o propósito de exigir a nudez, a humilhação e a inferioridade destas vidas, em nome da ciência, do ‘jornalismo honesto’, da humanidade e do destemor.

Saindo da abstração.

O repórter em busca da realidade com a sua sensibilidade em nome de uma empresa jornalística:- ouvindo histórias das vidas dos outros. Sugando dos outros a única coisa que eles têm, além do corpo nu: uma história, a sua vida, a sua perplexidade, as suas próprias dúvidas e pequenas verdades (e separa grande medo).

E o que ele ouviu que era ‘jornalismo’.
E uma linguagem que lhe disseram que era jornalística?
Como esta linguagem que lhe disseram ser ‘jornalística’ se adequa aos olhos e às mãos daquele homem à beira do rio?

As lembranças do repórter:- tudo isto me parece curioso, obsceno, aterrorizante’, disse certa vez um repórter. James Agee, de quem fiz a citação anterior. James Agee, um imenso repórter. Era um garoto quando a Life lhe pediu a história de algumas famílias rurais na época da Depressão dos EUA, de onde nasceu uma espantosa reportagem, “Louvemos Agora os Grandes Homens”.

A Life rejeitou a reportagem de Agee por considerá-la anti-jornalística. Agee descrevia com minúcias até a respiração do pesado sono de trabalhador. Construiu um documento eterno. Seu relato é obra à altura de Steinbeck, John dos Passos, Faulkner.

E a Life rejeitou.

O relato seria publicado na forma de livro trinta anos depois, editado numa coleção de Antropologia dirigida por Lévi Strauss.

Da rejeição em nome do jornalismo “objetivo” para a glória das famílias camponesas assassinadas em nome do liberalismo do sonho norte americano.

O REPÓRTER E SUA FORMAÇÃO

A certeza que o repórter tem de que muitos colegas ainda têm na cabeça o mito do texto jornalístico e do texto anti-jornalístico. A questão do ‘texto objetivo’.

A pergunta: que texto é esse? Onde nascem e com quem a técnica jornalística ensinada pelo que é publicado nos jornais e revistas, e pelas ‘Escolas de Comunicação’. Onde nasceram e como lidar com as ideias de objetividade e neutralidade?

Uma resposta possível: este texto jornalístico, esta linguagem fluente nos jornais surge com a estruturação da imprensa em forma de empresa/imprensa; empresas ligadas diretamente a determinada forma de organização da sociedade, o capitalismo. O texto nasce do olhar do repórter sobre a realidade.

Voltando ao rio, àquele homem.
A responsabilidade diante dele e daquele momento.
A necessidade: saber ouvir, saber descrever.
Ficção e realidade.

No jornalismo, uma casa ou pessoa tem apenas o mais limitado dos seus significados através do repórter. Seu verdadeiro significado é muito maior. O personagem existe num ser concreto, como você e eu.

O jornalismo é um método: trabalha como instrumento de descoberta de uma realidade, com formas próprias, anotações, pesquisa.

É preciso libertar o olhar, a apuração e a palavra, o texto escrito. Jornalismo literário.

Creio que poderia continuar escrevendo minhas lembranças do Mestre Marcos Faerman, porém, vivemos de espaços editoriais e a “nova linguagem dos textos digitais” nas redes sociais exigem textos curtos, leituras breves. A concentração, a leitura e a reflexão estão quase impossíveis nestes tempos de telas de cristal e algoritmos.

Termino este breve ensaio – já não é apenas uma crônica – sugerindo ao leitor/leitora novas pesquisas aqui na internet sobre o Novo Jornalismo surgido lá nos anos 50, nos EUA, e que brilhou aqui no Brasil a partir dos anos 70.

Destaco os textos e reportagens da Revista REALIDADE; e tudo o que encontrar sobre o Marcos Faerman, o repórter das palavras aprisionadas.

Ele as libertou e nos libertou.

Vida eterna no infinito, Marcão.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que segue com o olhar apurado, sensível e o desejo de escrever textos saborosos, com cheiro e jeito de “gente humana”; um repórter. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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