Notibras

MARIA DO SILÊNCIO

“Era assim chamada desde pequenina. Falar falava pouco; quase nada. Cedo aprendeu o prazer das mínimas palavras.”

Caminhar caminhava, por horas, com o seu cajado de maestrina todo enfeitado por linhas e cores e mágicas.

Maria aprendeu com o silêncio o sabor da vida e os sons que tudo habita.

O silêncio dela era repleto de operetas longínquas e referências herméticas ao estilo de Hermeto, o bruxo Paschoal das invenções sonoras.

Dançar não dançava, mas cantava como as sábias-laranjeiras que dividem comigo a vivência na pequena pousada que hábito a beira do mar.

Maria do olhar.

“Maria do olhar que habita. Plenitude e finitude. O olhar de Maria vagueava em verticais ondas que alcançavam o horizonte. Descanso das visões mais ousadas, das culminâncias do sentir. Nome de santa e olhar de tantas… Buscadoras de si. Num mundo que sacode almas puras. Calar é acalanto, quando tudo grita e regurgita. Calar é canto que aquece e acalma. Embala a alma. Acolhe na palma. O coração daquele que pediu só mão.”

(Edna Domenica, escritora Florianópolis SC)**

Maria do não-lugar.

Como viver num mundo barulhento e desterrado, sem nenhum lugar?

Maria vive sempre a procurar o seu lugar no OUTRO, mas sem encontrar

a brecha, o vão, a porta de emergência para – em si- entrar.

E nessa busca solitária, em silêncio absoluto ela segue a tropeçar…

“Cai aqui, cai acolá, levanta e teima novo caminhar… tigum, Maria… é hora de nadar.”

Corpo solto na corrente do rio da Madre, braço de mar.ç

Navegando a água-útero o desafio é atravessar e vencer a impotência das palavras e só desejar não bater lá no costão para se espatifar.

Maria nada feito sereia imitando dançar:

“… gira tronco, bate pernas, tudo a revirar; nas águas do rio da Madre sentimento farto de vida, de luz feito sopro e parto. Maria em seu mariar.”

Calar para ver.

E ouvir os sons dos deuses e as conversas e cânticos dos anjos.

Olhar olhava e a tudo observava; a vertigem do Caminho dos Olhos:

ob-ser-var!

Maria não falava, porém enxergava com os olhos d’alma e do coração.

Certo dia alguém perguntou a Maria:

“Maria, por que tanto silêncio e esse mistério no olhar?”

E ela apenas cantou um canto tão profundo e lento, capaz de assombrar as trombetas do infinito. Maria era assim: na lata!

Maria firmamento.

Infinito azul do mar.

Outro dia encontrei Maria caminhando pela areia beira do rio rumo ao mar aberto e eu nada disse, mas pensei:

“minha querida Madre, como pode ser tão profundo o teu silenciar?”

Maria abraçou-me em imenso silêncio e nunca mais a vi.

Eu segui com a percepção de que na vida o que vale mesmo é:

“calar, observar e caminhar; mesmo que seja para se espatifar.”

E todos os dias recomeçar.

“Onde céu / onde mar / onde praias a caminhar / onde mais azul / que o azul do azul / do mar?”

………………….

* Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador que segue caminhando, em silêncio, fiel aprendiz de Maria. Vive na Guarda do Embaú, pequena vila de pescadores e turistas do litoral de SC.

** Poema em prosa de Edna Domenica, escritora, professora e pesquisadora da arte literária, dos sentidos e da palavra. Vive em Florianópolis SC.

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