A Marluce e eu somos amigas há décadas, que não sou capaz de me lembrar do tempo em que ainda não nos conhecíamos. Sintoma de velha? Que seja! Não ligo mais, como quem mente na maior cara dura.
Sei que foi lá pelos idos de 1971, pouca coisa antes ou depois. Época sem aparelho celular, mas que, ao menos, sabíamos onde estava o telefone. Tudo bem que a conta era um horror, o que nos obrigava a dar valor aos encontros reais. Sorte a nossa que morávamos no mesmo prédio, lá na 312 Norte, em Brasília. E foi naquela quadra que passamos boa parte da juventude, criamos nossos filhos, que, quando deu a época da revoada, foram viver suas vidas longe do ninho.
Mais de meio século depois, já não nos vemos com frequência. Eu me mudei para João Pessoa, enquanto Marluce permanece na capital do país. Não mais na 312, não mais na Asa Norte, foi morar no Lago Sul, área de gente endinheirada. Viúva do primeiro marido, o querido Zé Carlos, casou-se com um cardiologista. E, apesar da distância, nossas conversas diárias são quase sagradas. Geralmente no final da tarde, ela em frente à piscina, eu diante da praia de Cabo Branco.
Ontem mesmo, distraída que sou, enquanto procurava meu celular, eis que topei o mindinho no pé do sofá. As lágrimas ameaçaram escorrer, mas consegui retê-las a tempo de salvar a maquiagem. O maldito, acredite, estava escondido debaixo das almofadas.
— Solange, você precisa ter cuidado. Poderia ter quebrado o pé.
— Menina, mas como doeu! Cheguei a ver estrelas, e olha que o dia estava claro ainda. Mas me conta, como é a vida de rica? Você e o Edgar tomam champanhe todos os dias na piscina?
Obviamente que disse aquilo para escutar a reação da Marluce, cuja gargalhada sempre teve a capacidade de transformar até velório em baile de carnaval.
— Seria um sonho, Solange, mas o Edgar passa mais tempo no hospital e na clínica do que em casa. E olha que o Augusto, o filho mais velho dele, que também é médico, fala pro pai se aposentar ou, no mínimo, tirar férias prolongadas. Mas que nada, minha amiga, o Edgar, se parar de trabalhar, enfarta no dia seguinte.
Passamos quase duas horas ao telefone. É que o assunto não acaba e, se a gente deixar, a conversa vai até a orelha doer. Digo que, aqui em casa, o Arnaldo não dá um passo sem me consultar. E não pense você que gosto dessa coisa da esposa controlar o marido. É questão de dependência, como se ele nem percebesse que o costume do cachimbo entorta o queixo. Capaz do meu esposo estranhar se eu tentar ajeitar os seus lábios tombados.
Arnaldo e eu, de vez em quando, inventamos de fazer planos. Quase sempre é aquela bagaceira, nada sai do jeito que planejamos. Mas está tudo bem, vida de velho tem lá dessas coisas. Tomamos outros rumos, a vida da gente, apesar das mudanças, continua a mesma. E o tempo não espera para escutar lamúrias.
Não temos controle sobre nossa vida. Não me esquivo de confessar que, ainda na juventude, acreditava que eu era a dona do próprio destino. Entretanto, há tempos percebi que somos meras marionetes.
Tenho consciência de que tem gente com pouca sorte, cujos caminhos são repletos de pedras, espinhos, lama. Se vivi o pão que o Diabo amassou? Não sou hipócrita a esse ponto. A vida me reservou, vez ou outra, algumas boas colheradas de doce de leite. Não à toa, meu apartamento dá de frente para a praia de Cabo Branco.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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