Eu só saí de Macapá/AP, minha cidade natal, e vi televisão pela primeira vez, aos 17 anos de idade, em 1972. Fui a Belém do Pará, onde fiquei deslumbrado com a visão de uma cidade grande e histórica como é a Porta da Amazônia. No mesmo ano, peguei o rio e a estrada e só volto a Macapá esporadicamente. Em um desses retornos, eu acabara de chegar a cidade, em um voo de manhã, quando me perguntaram se ainda tomava açaí.
– É claro! – respondi. Aí, me serviram açaí-papa com farinha de tapioca e tucunaré frito. Um banquete!
Nos 17 anos de Amapá, fiz tudo o que um escritor ribeirinho faz. Tomei banho no Rio Amazonas, pesquei no Rio Matapi, comi peixes e frutas amazônicas, ouvi merengue, senti o perfume dos jasmineiros e ofertei rosas para a madrugada.
Em 1975, fui conhecer a família do meu pai, João Raimundo Cunha, em Manaus/AM, e fiquei lá durante três anos. Assim que cheguei à cidade, comecei a trabalhar como repórter policial no Jornal do Commercio. De Manaus, mudei-me para Belém, retornei a Manaus e morei durante três meses em Rio Branco/AC. Assim, trabalhei em todos os grandes jornais diários e impressos da Hileia, viajando por toda a Amazônia.
Além disso, sempre li ficcionistas amazônidas e a literatura científica sobre a Amazônia, o que me levou a compreender com certa profundidade a região, tanto a alma do caboco quanto geopolíticamente.
Comecei a escrever em 1968, aos 14 anos de idade, influenciado pelo pai da minha geração de escritores, o poeta e cronista Isnard Brandão Lima Filho, e só escrevemos sobre o que conhecemos. Mesmo que escrevamos fantasia pura, a infraestrutura dessa fantasia acaba sendo o que conhecemos. De modo que grande parte da minha literatura tem raízes amazônicas.
Do meu trabalho baseado na Amazônia destaco três romances e um livro de contos: os romances A Casa Amarela, A Confraria Cabanagem e Jambu, e o livro de contos Amazônia. Este conjunto contém a chamada Questão Amazônica – o colonialismo, o isolamento, a miséria, o tráfico de drogas e de pessoas, principalmente de crianças para escravidão sexual, o estupro de crianças no silêncio da floresta, a falta de infraestrutura básica e a ululante falta do Estado.
