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MEU AMIGO DE LISBOA

A palavra Pobreza foi usada e abusada até perder o seu real significado.

E, num certo sentido, a perversão semântica é bem-vinda: a coisa está bem diferente; hoje já ninguém é pobre como antigamente e, acima de tudo, a memória da miséria dos nossos pais e avós está guardada em baús que não se abrem.

Por um lado, é difícil perceber claramente o conceito de pobreza. Por outro, por exemplo, em Portugal a situação já foi muito pior.

Tenho um amigo da minha geração que conta, divertido, que só percebeu que era pobre já adolescente.

Deusdede nasceu, cresceu e vive em Lisboa.

Toda a sua família e todas as pessoas com quem convive reproduzem o mesmo contexto. E Deusede apenas no liceu – ao conhecer meninos de famílias mais abastadas – pode comparar a maneira como vivia e tudo o que não tivera e que até então fizera falta nenhuma.

Sua avó materna até mesmo era apontada como uma mulher “de posses” porque possuía uma vaca e vendia leite na vizinhança; leite que ela acrescentava água para render mais.

O marido da “leiteira”, seu avô, tinha um chapéu bastante usado e mesmo assim era considerado um senhor elegante.

Deusdede faz contatos pelo WhatsApp comigo, mas gosta mesmo de escrever e enviar-me longas cartas saborosas e descritivas:

“Longe de sermos ricos estávamos, porém, bastante acima da dita linha da pobreza; e muito mais distantes da miséria. Nunca faltou comida e a ideia que tenho é que vivíamos com conforto e alguns pequenos luxos como ter empregados serviçais em casa”.

Porém, a ideia de poupança sempre esteve presente. Nada era deitado fora sem que houvesse hipótese de ser aproveitado:

“Sem ser costureira talentosa a avó Luísa sabia cerzir as meias e peúgas na perfeição, sempre com a ajuda de um ovo de madeira e um dedal. Colarinho e punhos puídos ganhavam nova vida ao serem virados e costurados novamente. Calças demasiado curtas viravam calções para o verão. Lençóis velhos se transformavam em trapos para a limpeza. Restos de sabão azul e branco eram guardados até atingir a quantidade necessária para fazer uma boa barrela”.

Na alimentação havia verdadeiros milagres gastronómicos. Restos de carne assada surgiam em aproveitamentos como empadão ou massa de croquetes. O cozido à portuguesa servia mais de uma refeição e terminava como sopa com o restinho das carnes desfiada:

“E como era bom!…Sobras de arroz invariavelmente voltavam à mesa sob a forma de bolinhos de arroz. Juntavam ovos, muita salsa picada, cebola bem fininha e um pouco de farinha e eram fritos. O pão velho ganhava vida em açordas ou rabanadas. Até o leite talhado – e acontecia com frequência ao ferver – era aproveitado. Ia ao lume com açúcar e recordo que punham um pires no fundo do tacho e ia cozer lentamente até adquirir uma bela colocação acastanhada e comíamos como sobremesa com requeijão”.

Deusdede tem memória de elefante e a escrita fluída dos grandes cronistas.

“O tio Albino sabia cortar garrafas com uma perfeição impressionante. E fazia tampas em madeira à medida. Eram excelentes para guardar grãos, açúcar, café e sal na despensa. A tia Maria da Graça aproveitava latas grandes como as do leite em pó. Forrava-as com plástico que comprava à metro e decorava-as com flores de feltro”.

Lendo as cartas de Deusdede percebo que sempre considerei normal ser poupado nas mínimas coisas.

Apagar as luzes ao sair da divisão da casa é uma mania. Cresci assim. Fui educado assim. No poupar está o ganho.

Em pequeno, lembro-me de sair com meu pai e dizer que tinha sede e propunha comprar uma garrafa de água num café. Ele dizia sempre: “bebes quando chegares à casa. É mais barato, meu pirralho”.

Esta semana, Deusdede enviou-me por Sedex – nossa! Ainda existe este serviço? – um livro incrível de Maria Filomena Mónica, ” Os Pobres”:

“No meu caso, como na maioria das famílias de classe média urbana, os contatos com os pobres resumiam-se às relações com as criadas que viviam em casa dos nossos pais. De uniforme preto e avental branco com rendas, serviam os pratos do dia como a patroa lhes tinha ensinado. Ouviam conversas íntimas, sem que ninguém se preocupasse. Era como se não existissem. ”

Há alguns anos, em outra carta, Deusdede destacou:

“Conheci uma família em que as senhoras a meio da conversa mudavam do português para o francês. A primeira vez que presenciei a cena achei bizarro. E indaguei a razão. A resposta foi: Ah, é para as criadas não perceberem… essa gente é muito curiosa e linguaruda!”

ESSA GENTE… Foi quando me dei conta que havia ELES e os OUTROS. E os outros geralmente eram “essa gente”.

Sempre achei curioso o verdadeiro sistema de classes sociais em Portugal. E confesso que existem tantos “códigos” de postura, etiqueta e linguagem que para um estrangeiro deve soar estranho.

Como saber se deve dizer prenda ou presente?

Vermelho ou encarnado?

Magoar-se ou aleijar-se?

E se deve ou pode cumprimentar com um ou dois beijinhos?

Não sei se estas filigranas de comportamento ou indicadores de estatuto social são normais em todo o país ou é um fenómeno lisboeta.

Como não vivo em Lisboa – quem sabe um dia…-, sigo aqui pelo Brasil, o país dos Bruzundangas, tentando me acostumar com o “carinho desleixado” dos meninos e meninas caminhando pela trilha do Costão em busca das ondas mágicas da Guarda do Embaú SC, pois tratam-me por TIO…

“Porra, tio, o bagulho é doido e a chapa tá fervendo, meu!”

Pelo menos, sigo com a sensação de representar um Tio rico de alma, lembranças e imaginações.

E infinitamente distante das misérias imediatas como as narradas por meu amigo lisboeta, o gajo Deusdede.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e que, mesmo com o nosso passado colonizado e invadido, segue amando o fado, a poesia de Pessoa e as gentes lá da “terrinha”. Vive na Guarda do Embaú, comunidade de pescadores, turistas e surfistas no litoral Sul de SC.

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