Elias e eu nos esbarramos pela primeira vez ainda na adolescência, quando nós dois, por razões diversas, entramos de penetra em uma festa de gente da alta sociedade brasiliense, lá nos idos de 1970. Enquanto eu queria me aproximar da aniversariante, ele estava mais interessado na farta comida e, talvez, respirar, mesmo que por algumas horas, o ar próprio dos endinheirados.
Não sobrevivemos mais do que míseros 10 ou 15 minutos, o suficiente para constatarmos que aquele ambiente era algo praticamente intransponível. Por sorte, não chamaram a polícia. Por azar, cada um levou um doloroso e humilhante tapa na orelha.
Eu, que era metido a valentão, olhei bem nos olhos daquele segurança e jurei vingança. Quanto ao Elias, já naquele tempo, demonstrou ser mais sábio do que as bravatas que saíram da minha boca.
— Meu amigo, o nosso problema não é aquele segurança.
Como assim? Foram precisos anos e pancadas para que eu conseguisse entender o real significado daquelas palavras. Realmente, aquele cara pertencia ao nosso meio. Ele só estava tentando sobreviver neste mundo de injustiças, mesmo que precisasse agir contra os seus em prol dos outros. Entretanto, não vou negar que sentir certo regozijo quando, décadas depois, reencontrei o meu algoz.
O tipo ainda conservava um físico invejável para um homem daquela idade. Não chegava a ser um velho, mas estava longe de ser alguém que pudesse me amedrontar. Estava eu perto de completar 40 anos, ele carregava no alforje uns 15 a mais. Seu rosto, alquebrado, certamente não se lembrava de mim. Quantas orelhas aquelas mãos calejadas teriam atingido? Ele me olhou com aqueles olhos subservientes de quem está acostumado a obedecer.
— No que posso ajudar o senhor?
Observei-o por alguns instantes, até que lhe perguntei seu nome.
— Matias.
— Dádiva de Deus.
— O quê?
— O seu nome. Não sabe o significado?
— Não, senhor. Mas é Matias, ideia de uma tia, irmã da minha mãe.
— Você trabalha, Matias?
— Quanto aparece um bico, eu pego. Não dá pra escolher muito, pego o que dá.
— Sabe dirigir?
— Sei, sim, senhor.
Foi assim que Matias passou a ser o meu motorista. Na verdade, eu já tinha o Chagas, mas não consegui resistir à ideia de manter o meu ex-algoz sob o meu comando.
Voltemos ao início dos anos 1980, quando os laços de amizade entre Elias e mim pareciam indissolúveis. Já havíamos estado juntos em trincheiras, quando tudo e todos pareciam contra nós. Ele, que havia conseguido passar no concorrido concurso para o Banco do Brasil, jamais deixou a serenidade abandoná-lo. Eu, por minha vez, me sentia cada vez mais excluído e, por motivos tolos, me afastei do meu amigo.
Só quando vivenciamos a virada do milênio, que muita gente achava que o mundo iria acabar, reatamos os velhos laços. Elias, sempre o filósofo da turma, me disse que amigos se afastam por motivos todos, como só os velhos e verdadeiros amigos são capazes de fazê-lo. Sorri e, desde então, diante daquelas palavras tão sábias e do gesto de estender a mão e me puxar para um abraço, não há briga, mágoa ou silêncio que resistam.
Nessa época, eu já estava por cima da carne seca. Elias sorriu, como se aquilo significasse que sempre soubesse que um dia isso fosse acontecer. Não percebi resquício de inveja por parte dele, que sempre levara uma vida prosaica. Desde que tivesse um bom livro nas mãos e tempo para lê-lo, estava tudo bem.
Sentados à mesa de um café na Asa Norte, relembramos várias passagens da nossa juventude. Foi aí que surgiu o assunto da vez em que fomos expulsos daquela festa. Ele colocou a mão na orelha esquerda e fez cara de dor.
— Aquilo doeu pra caramba.
Meu camarada gargalhou. Tentei acompanhá-lo, mas me senti ainda mais tolo. Não fazia nem dois meses que o Matias trabalhava para mim. E, desde então, eu o tratava de maneira desdenhosa. Não chegava a ser estúpido, era como se quisesse me vingar por aquele tapa.
— Está com tempo, Elias?
— Sim. Por quê?
— Quero que você conheça alguém.
Impulsivamente, fiz uma ligação. E, após cerca de meia hora, lá estava o Matias, em pé diante da mesa do Café. Elias observou aquele sujeito enorme, apertou os olhos, como se tentasse buscar na memória algo, mas nada disse.
— Elias, esse é o Matias.
Elias se levantou e cumprimentou o meu motorista com um forte aperto de mão. Ele o convidou a se sentar conosco, mas Matias me lançou um olhar confuso. Puxei uma cadeira e lhe disse para se acomodar.
Passamos o resto da tarde conversando trivialidades. Não sei se o Elias reconheceu o nosso algoz dos idos de 1970 ou, então, preferiu deixar aquilo lá atrás. E o meu amigo estava certo. Éramos, os três, o mesmo tipo de gente.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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