Notibras

Meu primeiro conto de carnaval, escrito durante a pandemia

Onofre estava com 119 anos, mas, na sua opinião suspeitíssima, enviesadíssima, ainda tinindo, ainda capaz de envolver uma mulher entre 18 e 118 anos com seus bracinhos flácidos.

Milagre de sobrevivência, ele mal sentira os efeitos da quarentena. A neta continuou a trazer-lhe as refeições, como fazia há décadas, muito antes da pandemia. No mais, ele via televisão, ouvia música… e sonhava.

Onofre sonhava com o carnaval. Especificamente, com o carnaval de 1919. Ele lembrava como os sobreviventes da gripe espanhola se entregaram de corpo e alma à luxúria, a celebrar a vida e exorcizar a morte. Lembrava, em especial, dos cantos lúbricos trocados entre rapazes e moças:
“Na minha casa não se racha lenha” entoavam os homens, com um sorriso sacana.

“Na minha racha, na minha racha!” respondiam as moças, com um sorriso mais safado ainda. E contra-atacavam: “Na minha casa não se pica fumo!”

“Na minha pica, na minha pica!” respondiam em coro os machos.

Em seguida, moças e rapazes se enroscavam e sumiam, para comprovar o que se fazia ou se deixava de fazer em suas respectivas casas.

“O carnaval de 2021 vai ser ainda melhor”, repetia sempre. “A sacanagem agora é ampla, geral e irrestrita!” (ele lembrava desse bordão da longínqua campanha da anistia, dos anos 1970 e 1980, e a usava sempre que possível).

Em janeiro, quando saíram às ruas os primeiros blocos – desafiando as autoridades, pois a pandemia continuava a matar por todo o país –, Onofre juntou-se a eles. Foi fantasiado de pierrô, como fizera em 1919 e em dezenas de carnavais subsequentes. Ele admitia, a contragosto, que não era mais um garotão de 80 anos, que se tomasse um viagra ou algo similar seu coração parava no ato; mas, pelo menos, queria ver os corpos entregues aos prazeres da carne.

E não se decepcionou: viu muito beijo na boca, mãos nada bobas e brincadeirinhas ainda mais excitantes. Animadíssimo, convocou as mulheres com seu canto de guerra:

– Na minha casa não se racha lenha! – entoou com voz trêmula.

Não houve resposta. O velho decrépito vestido de pierrô foi simplesmente ignorado.

Exasperado, Onofre apelou para os homens.

– Na minha casa não se pica fumo! – cantou, já zangado.

“Velho sem noção”, falaram alguns. Outros se limitaram a rir dele.

Furioso, Onofre acompanhou o bloco andando rápido, enquanto alternava aos berros as duas palavras de ordem de 1919. E, como era previsível, seu coração não aguentou e ele tombou, morto, em seu último carnaval.

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