Notibras

Milhares de crianças nasceram nove meses depois

O apagão começou às 19h15 e se estendeu aos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

Jonas estava em casa, vendo TV, quando tudo desligou. Levou um susto, depois olhou pela janela do apartamento, no 8º andar, e viu boa parte da capital paulista às escuras. “É, pelo jeito vai demorar pra luz voltar”, pensou. Seria uma longa noite, precariamente iluminada por velas ou lampiões. Tudo podia acontecer.

Fumou um cigarro junto à janela e recordou o apagão de Nova York, em 2003. Já tinha lido a respeito, sabia que a metrópole ficara sem energia por mais de 90 horas. “Nada a fazer senão trepar. E eles treparam adoidado”, pensou com sorriso. “Milhares de crianças nasceram 9 meses depois”. Pelo jeito, ia ser igual em São Paulo. Só que ele estava sozinho…

Apagou o cigarro e saiu para o corredor. Viu então a porta do apartamento ao lado se abrir e uma mulher sair, empunhando uma vela. Tinha uns 40 anos e morava sozinha. Ele a cumprimentava quando se cruzavam no edifício e sabia que se chamava Mariana, mas só isso. Nem a julgava atraente. Contudo, a luz difusa da vela suavizava suas feições, tornando-as perturbadoramente belas.

– Boa noite – disse ele (“Frase idiota”, pensou). – E decidiu improvisar:

– Vou lá embaixo ver se há algum problema com os fusíveis. Quer vir comigo? Sua vela pode ser útil…

Ela sabia que o apagão seria demorado e não tinha nada a ver com fusíveis. Mas não hesitou, eram dois animais buscando amparo um no outro.

– Vamos sim.

Ele e pegou pela mão. Ela aceitou. E conduziu-o pela escada, em silêncio, com a vela iluminando um pouco à frente.

Na sala de máquinas, nem examinaram a caixa de fusíveis. Sempre em silêncio, olharam em torno, para constatar que estavam sozinhos, aproximaram-se e beijaram-se enlouquecidos. Praticamente não houve preliminares, ele pôs a rola para fora, tirou a calcinha dela e começaram a trepar. Ele sabia que estavam reencenando um rito primordial, de unir sua energia sexual à dela e enviá-la ao universo, para reforçar a luz do Sol e suplicar pelo seu retorno. Era um ritual que já acontecia em torno das fogueiras dos neandertais e dos primeiros grupos de Homo Sapíens; uma celebração que se realizara nas civilizações da antiguidade, em festivais como o do Sol Invictus, na Roma imperial. Ocorria em 25 de dezembro, numa antecipação do retorno da luz após a noite mais longa do ano. “Os cristãos se apropriaram da data para o nascimento de Jesus. São uns ladrões”, pensou ocultando um sorriso.

Depois arrumaram suas roupas e começaram a subir os oito andares, guiados pela luz da vela. Continuavam sem falar. Sabiam que haveria novas trepadas na longa noite, no apartamento dele ou dela. Transas mais elaboradas, os dois nus na cama, preliminares gostosas, chupadas na xaninha e no cacete, talvez um anal, ia depender dela. E quem sabe fosse a primeira de muitas transas, em outras noites, depois que o blecaute terminasse.

Mas o fundamental já fora realizado, a união da energia sexual dos dois e seu encaminhamento ao Sol, em uma oferenda para fortalecê-lo e convidá-lo a retornar. “Os pagãos sabiam das coisas, fuder é uma celebração da vida”, pensou Jonas, enquanto acariciava – pela primeira vez – a bundinha que se movia à sua frente. “E fazer gostoso, dar prazer à parceira ou ao parceiro é o mínimo que devemos aos deuses”.

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