Notibras

Milton com os seus botões

A ilusão, não raro, é mais urgente do que o amor improvável. E era baseado nesse pensamento que Milton buscava redenção da dor que sentia por ter sido abandonado por Denise, cuja liberdade não parecia compatível com os princípios morais do sujeito. E foi com aquele sentimento de perda que o homem preferiu seguir seu caminho a ter seu retrato estampado nas páginas policiais.

Enjeitado, Milton foi chorar as mágoas na cama. E como chorou! Foram tantas lágrimas, que o coração ficou seco. E foi nesse instante em que percebeu que talvez a solução seria engatar um novo romance. Mas logo desistiu, pois sabia que a paixão por Denise ainda lhe fazia perder o sono e o resquício de juízo que supunha ainda guardar em algum canto.

Agitado por causa do abandono, finalmente criou coragem e foi ter uma conversa séria de homem para homem com o sujeito ao fundo do espelho do banheiro. A princípio, olhos baixos, de quem tentava escapulir daquela situação constrangedora. No entanto, não se sabe de onde, surgiu uma concha de coragem e, do nada, ligou a matraca.

— Sabe, meu amigo… Posso te chamar assim, né?!

— …

— Obrigado. E você pode me chamar de Milton. Bem, é como me chamo, mas pode me chamar do que quiser também. Ultimamente ninguém parece se importar. E quem é que liga se a gente se chama Milton, José, Alfredo, Pedro…

— …

— Você gosta de Milton? Então, meu amigo, fica sendo Milton mesmo. Na verdade, fica até mais fácil, pois é como estou acostumado a ser chamado. Minha mãe não queria, mas parece que foi coisa predestinada.

— …

— Sim, isso mesmo! Predestinada. Acredita?

— …

— É uma longa história, mas se você estiver com tempo…

— …

— Ah, tá! Eu entendo. Tempos corridos, né, meu amigo?! Então, vou ser breve. É que um tio morreu antes de eu nascer. Você sabe, né? Aquela comoção na família.

— …

— Ah, era irmão do meu pai. E se chamava tio Milton. Quer dizer, não tinha tio no nome, mas é como os meus pais se referem a ele até hoje.

— …

— Ah, se dependesse de mamãe, meu nome seria Alexandre.

— …

— É verdade. Você tem razão, meu amigo. Já existem muitos Alexandres no mundo. Mas você acha que se eu me chamasse Alexandre teria alguma chance com a Denise?

— …

— É meu amigo, também acho que esse lance de nomes não tem nada a ver.

— …

— Não! Que isso? Não fiquei chateado. Melhor ouvir a verdade na lata a um monte de mentiras à prestação.

— …

— Você tem razão, meu amigo. Vida que segue. E que a Denise seja feliz.

— …

— Obrigado por me escutar, meu amigo. O sono bateu firme. Agora vou dormir. Boa noite.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Sair da versão mobile