Minha mãe adorava festas! Todas as datas eram oportunidade para unir pessoas e festejar. Nos aniversários, as opiniões dos aniversariantes não contavam: haveria uma celebração e ponto final!
Quando contrariada por alguém da casa, minha mãe dizia que só queria agradar, mas sabemos bem que essas festas e encontros eram para sua própria satisfação. Ela gostava de ser o centro das atenções, a matriarca do lar, paparicada pelos convidados, a poderosa!
Lembro bem: no ano passado, meu irmão Thiago, de doze anos, avisou que queria uma comemoração simples: chamar alguns poucos amigos da escola, passar a tarde jogando videogame e fazer um lanche. Planejou até quem convidaria. O pobre do garoto teve seu desejo de aniversário perfeito rapidamente soterrado pelos planos da minha mãe! Feliz da vida, ela alugou um salão de festas infantil e preparou uma festança para cerca de cem pessoas.
Meu pai, sempre passivo nessas horas, dizia para não nos preocuparmos e deixarmos isso com a mamãe, deixando-a feliz; afinal, “não custava nada.” Claro, qual o problema de ela pegar as datas de aniversário de todo mundo na festa dos sonhos dela?…
E, dessa vez, que maravilha: o agraciado seria eu, que faria aniversário em breve. Só que eu não estava a fim de facilitar a vida do outro. Vou fazer vinte anos e não vou ser atropelado novamente. Sei que será um confronto difícil, mas preciso dar esse passo.
Já preparado mentalmente para o estresse, chamei meu pais e falei: não quero nada grande no meu aniversário. Eu mesmo decidirei o que quero fazer.
Meu pai, sabendo que viria encrenca, mas tentando me apoiar, falou:
— Diz o que você quer, filho!
— Quero ir ao shopping, pegar um cinema e comer uma pizza com a minha namorada. Vai passar o filme dos Vingadores, sempre vemos! Desta vez, quero ver no meu aniversário! À noite, a gente se reúne e janta em casa algo especial.
Mais tarde, não deu outra… Lá veio ela, com sua conversinha de sempre:
— Ah meu filho, o que você quer não é comemoração! É sua festa de vinte anos, uma data importante, precisa ser especial, precisa ser comemorada!
Lá vamos nós mais uma vez! O que eu podia esperar de uma mulher que não respeita as vontades de ninguém? Ver, de novo, meu aniversário ser palco de um desfile de convidados dela, com o cardápio dela, as canções dela, todos os seus desejos!
— Mãe, não é isso que eu quero! Está decidido, já combinei com minha namorada! Vou passar a tarde com a Gi e, à noite, estou em casa para jantarmos algo especial.
Muito chateada, ela deu uns resmungos e foi para a cozinha. Meu pai, milagrosamente, não me pediu para reconsiderar, nem intercedeu por ela.
Chegou meu grande dia! Vinte anos! Acordei com um super café da manhã em família! Ganhei presente das mãos do meu irmão, fiquei muito feliz com tudo!
À tarde, sem nenhum drama da minha família, passei uma tarde maravilhosa com minha namorada. Vimos nosso filme, lanchamos, passeamos. Ainda ganhei uma camisa linda dela!
Falei que usarei nas minhas entrevistas de estágio, para dar sorte!
Ao sairmos do shopping, ia deixar a Gi em casa, ficar um pouco com ela, como de costume, depois ir para casa encarar o jantar com a família; porém, ela falou que meus pais ligaram cedo para ela e a convidaram para jantar conosco! Nem acreditei! Que aniversário perfeito! Finalmente minha mãe estava entendendo que sou adulto, que tinha minhas escolhas de vida, que precisavam ser respeitadas.
Chegando em casa com a Gi, abri a porta e fui recebido com os gritos de “SURPRESA!!!”! Ao acenderem as luzes, percebi o que tinha acontecido… Minha mãe fez uma festa surpresa! A Gi me olhou sem graça, dando um sorriso amarelo. Eu, puto mas educado, coloquei o sorriso que pude e fui abraçar os convidados. Uma mistura de amigos meus, família e amigos da minha mãe. De casa, seguimos para o salão do prédio, onde seria o local da festa e chegariam ainda mais pessoas.
Não quero ser ingrato, mas minha mãe poderia entender que a felicidade, para alguns, é fardo para outros! Querendo criar memórias grandiosas, ela esquece que as comemorações simples têm o mesmo valor, o amor não é medido numa festa.
Relaxei e aproveitei a festa. Levei a Gi para um canto fora do salão e a enchi de beijos. Ela, se desculpando, explicou que ia se queimar com a minha mãe se tivesse me alertado, pois eu não saberia disfarçar o momento da “surpresa”.
— Tá tudo certo, Gi… se eu não posso fazer nada, imagina você! Vem cá e me abraça!
Enquanto eu me divertia com meus amigos e minha namorada, minha mãe, toda bonitona e muito bem arrumada, dançava no seu palco particular, transbordando de alegria. Talvez um dia ela considere que os sentimentos e vontades da sua família são tão importantes quanto os seus, mas não naquela noite, que seria dela, mais uma vez! Ali ela era vista e elogiada. Era a Grande Dama, a rainha de todas as festas!
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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024).
