Notibras

Mistério na invasão da Groenlândia

Cidade de Nuuk, Groenlândia, ano de 2027, base central das forças americanas de ocupação:

— Estação polar Zebra, estação polar Zebra, estão na escuta?

— Positivo, estação Águia! Estamos na escuta!

— Tudo certo por aí? Estamos tentando contato há quatro horas, quem está falando?

— Aqui é a tenente Ellen Ripley, estou no comando. O equipamento teve uma pane, mas conseguimos consertar. Tudo normal agora!

— Positivo, tenente Ripley! E o capitão Kirk? Tudo bem com ele?

— Infelizmente, ele teve uma crise de hipotermia e está sedado.

— Que lástima! O helicóptero levando a equipe que irá render vocês já partiu, estejam prontos para embarcar!

— Entendido, estação Águia!

— Câmbio, desligo!

Algumas horas antes, em uma montanha nos arredores da cidade de Tasiilaq:

Sargento Scott Wilson:

— Maldito frio! Já estamos há um mês nessa montanha do inferno! Que ideia de jerico instalar um posto avançado nesse fim de mundo esquecido por Deus. Nem internet tem por aqui para o tempo passar mais rápido!

Tenente Ellen Ripley:

— Calma, sargento! Esse posto é necessário para prevenir uma possível incursão terrestre dos dinamarqueses, russos, chineses ou de outros países contrários à ocupação da Groenlândia pela América. Mas hoje é o nosso último dia por aqui, certo, capitão?

Capitão James Kirk:

— Correto, tenente! Acabei de contatar a Estação Águia, eles vão confirmar daqui a algumas horas, mas é praticamente certo que hoje seremos rendidos e dormiremos em um alojamento com calefação em Nuuk. Ah, tenente, fale sempre Great América, conforme a orientação do presidente!

Cabo Renee Good;

— Sim, Great, afinal, agora somos donos do mundo, não é mesmo? Que Deus tenha piedade do planeta.

Sargento Scott Wilson:

— Great ou não great, eu só quero mesmo é dar o fora dessa geladeira gigante! Ei, George, você parece meio melancólico com a notícia da nossa partida desse inferno branco. O que há?

Cabo George D. Bush:

— Não sei, há três dias tenho sonhado com os meus falecidos pais… parece que eles querem me avisar sobre algo que está para acontecer, mas não consigo entender o que é!

Cabo Cristopher Rogers:

— Todos estamos meio melancólicos e com saudade dos nossos familiares, mas tomara que o aviso não seja sobre uma invasão dos russos hoje, isso seria muito azar!

Capitão James Kirk:

— Isola, cabo, não precisamos disso! George e Renne, é a vez de vocês buscarem lenha no celeiro para alimentar a lareira.

Após vestirem pesados casacos de pele, os dois militares saíram da cabana a fim de cumprirem a ordem do capitão.

— Vamos, George, segure a corda que liga a cabana ao celeiro para não se perder, o vento está muito forte!

— Não estou conseguindo enxergar nada, Renne!

— Eu também não, concentre-se e ande devagar! Dá uns quinze minutos de caminhada.

Próximos do celeiro, os militares perceberam dois vultos que se aproximavam. Imediatamente, eles apontaram as suas pistolas.

Renee gritou:

— Parem, coloquem as mãos para cima e identifiquem-se!

Os vultos pararam onde estavam e um deles, com voz de ancião, falou:

— George, somos nós, Thomas e Mary, seus pais!

— O quê? Que brincadeira é essa? replicou Renne, perplexa.

— Pai, mãe? Emocionou-se George.

— Sim, somos nós, filho! respondeu uma voz rouca feminina.

— Aproximem-se, devagar! ordenou Renne.

Quando o casal já estava a poucos metros, sob o olhar espantado de Renne, George caminhou e abraçou-os demoradamente.

— George, o que está acontecendo? O que eles estão fazendo aqui? E você não tinha dito que eles eram falecidos?

— Sim, mas agora eles estão aqui! Agora entendi os meus sonhos, eles disseram que estavam voltando.

— Não estou entendendo nada, mas vamos pegar a lenha e voltar para a cabana antes que congelemos aqui, conseguiu racionalizar Renne.

Já na cabana, o simpático casal de anciões apresentou a sua incrível narrativa para os estarrecidos e incrédulos militares:

— Nós não sabemos explicar exatamente como, mas nesse tempo em que estivemos em outro plano, lembramos que ficamos pairando em uma zona cinzenta.

— Nós não podíamos falar, mas ouvíamos muitas vozes e enxergávamos movimentos de pessoas que estavam em uma espécie de vale.

— Então, de repente, estávamos caminhando na neve, certos de que encontraríamos o George.

Com exceção de George que segurava amorosamente as mãos dos pais, os demais presentes observavam fixamente o casal, ao mesmo tempo em que, desnorteados, olhavam-se sem saber o que dizer.

Mais familiarizada com a situação, Renne foi a primeira a falar:

— Olha, senhor e senhora Bush, não queremos duvidar de nada do que vocês falaram, mas entendam que essa situação é muito difícil para todos nós!

— Isso é espetacular, inacreditável mesmo, mas o fato é que vocês estão aqui, exclamou – encantada – a tenente Ripley.

— Que Deus nos ilumine nesse momento, gemeu o capitão Kirk.

Mudos e com o olhar vidrado, Cristopher e Scott apenas fizeram o sinal da cruz.

— Vocês estão com fome? Querem comer e beber alguma coisa? perguntou docemente, George.

— Aceitamos sim, filho! Somos humanos como vocês e sentimos fome, sede e frio, falou a senhora Bush.

Passado o impacto inicial da incrível situação, aos poucos o ambiente foi ficando descontraído, muito em função da simpatia e do carisma do redivivo casal de anciões.

— Imagine quando o mundo souber disso, vocês estiveram lá e voltaram, comentou Kirk, extasiado.

— Essa revelação é até capaz de parar essa e todas as outras guerras, observou Renne, encantada.

— Tenente Ripley e cabo Renne, vocês são duas moças gentis e adoráveis, elogiou Thomas Bush.

— E os rapazes são homens de bom coração e tementes a Deus, complementou a esposa Mary.

Enquanto aguardavam o tempo passar à espera da confirmação da rendição , o bate-papo corria solto e agradável entre os militares e o casal de anciões.

Apesar de – a exemplo dos colegas – também nutrir profunda simpatia pelos redivivos pais de George, passado o êxtase inicial, o sargento Scott começou a sentir um desconforto não explicitado com a situação, como se uma pulga insistisse em lhe morder uma das orelhas.

Assim incomodado, decidiu dar uma espiada na ficha funcional de George que, juntamente com os registros de todos os integrantes da equipe, estava um uma pasta dentro da mochila do capitão Kirk. Então, deixou a mesa onde o grupo conversava animadamente e dirigiu-se à sala anexa.

Após encontrar e ler a ficha de George, o sargento ficou lívido.

— Não é possível, estamos em maus lençóis, exclamou, mais assustado ainda do que ficara com a narrativa do casal que tinha retornado do além.

Imediatamente, voltou à sala principal e, discretamente, pediu ao capitão que o acompanhasse até a outra sala.

Após atentar para o detalhe que o sargento lhe mostrou na ficha de George, Kirk mudou de cor.

— Meu Deus, o que está acontecendo, Scott?

— Queria que você me explicasse! Acho que estamos todos loucos!

Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, Thomas e Mary, acompanhados de George, Ripley e Renne, entraram na sala.

O grupo olhava fixamente para os dois assustados militares que, inexplicavelmente, não conseguiam mais se mover.

Após um tempo que não souberam precisar, os dois militares acordaram lado a lado, fortemente amarrados em duas cadeiras.

Impotentes, eles viram todos os presentes na cabana sentados, com exceção de Cristopher que não se encontrava no recinto.

Quase ao mesmo tempo, gritaram:

— O que está acontecendo aqui?

— Não queríamos que fosse exatamente assim, lamento, amigos! falou friamente Thomas.

—Vocês não deveriam ter lido essa ficha, acrescentou sinistramente Mary.

— Quem são vocês? O que querem? questionou Scott, desnorteado.

— George, Renee, Ripley, o que estão fazendo? Onde está Cristopher? vociferou Kirk, aturdido.

— Eles estão conosco agora, capitão! Quanto a Cristopher, ele teve que ser descartado.

-Infelizmente, vocês estragaram a nossa narrativa ao descobrir que George é órfão desde os dois anos de idade e nem chegou a conhecer os pais.

— Lemos os sonhos dele por telepatia e incorporamos os personagens da sua projeção. Sabíamos que ele se deixaria dominar pelo desejo inconsciente de ter vivenciado uma existência com pais imaginários.

— Ele tem uma psique que se harmoniza com as nossas habilidades telepáticas.

— Sobre quem somos, querem ouvir uma boa história?

Sem conseguir articular sequer uma frase, os prisioneiros apenas murmuravam:

— Meu Deus, meu Deus!

Impávido, Thomas começou a falar pausadamente:

— Nós e nossa equipe de exploração chegamos a esse planeta há quase um século. Estabelecemos um posto avançado na região perto daqui, no interior de uma caverna muito próxima

Tomando a palavra, Mary falou:

— Organizamos toda a infraestrutura para sobrevivermos com conforto, mas tínhamos um problema: para avançarmos em nossos planos de dominação do planeta, precisávamos estabelecer contato com terráqueos que vivessem em um clima mais quente, pois os nativos da região não tem o calor corporal necessário que permita invadirmos as suas mentes.

— Então, quando vocês chegaram aqui, resolveram o nosso problema.

— Precisávamos fazer contato com vocês amigavelmente, então prospectamos a energia psíquica de George através dos seus sonhos e montamos o plano de abordagem.

—Também adaptamos as nossas aparências às imagens que ele projetou através do seu inconsciente.

— George, Renne e Ripley já foram introduzidos no nosso padrão mental e agora são nossos parceiros de missão.

Dito isso, os dois anciões retomaram as suas formas originais, o que muito chocou Kirk e Scott.

Estarrecidos e usando as suas últimas energias mentais, os prisioneiros amarrados às cadeiras ainda tiveram forças para perguntar:

— E agora, o que acontece?

— O que vão fazer com nós dois?

— Bem, com raríssimas exceções, nosso planejamento para o domínio desse planeta inclui somente humanos do sexo feminino, falou Thomas.

— Nossa raça estelar tem sexo único, nos auto-reproduzimos. Em se tratando de humanoides, somente as fêmeas terráqueas possuem potencial fisiológico para evoluírem e, com o tempo, se tornarem similares à nossa espécie, complementou Mary.

— George é um caso especial que pode ser aproveitado em razão da sua energia psíquica diferenciada.

— Quanto a vocês dois, entrarão agora em estado de desligamento e suspensão mental, supostamente devido à hipotermia.

— Quando os seus corpos forem reanimados em Nuuk, eu e Mary estaremos instalados nas suas mentes. De uma certa forma, vocês continuarão a existir enquanto forem úteis.

Nesse momento, Mary ordenou à tenente Ripley:

— Querida, pode religar o rádio, você sabe o que dizer à base de comando.

— Sim, líder! respondeu a militar integrante das forças de ocupação da Great América na Groenlândia.

— Estação polar Zebra, estação polar Zebra, estão na escuta?

— Positivo, estação Águia! Estamos na escuta!

Ao longe, já dava para ouvir o som do helicóptero.

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