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Momo antecipa vinda e Brasil vira palco de fantasias de Norte a Sul

Rei Momo soprou no ouvido do calendário e fevereiro perdeu o peso. O Brasil amanhece mais leve, como se a gravidade tivesse pedido licença para dançar. Máscaras aparecem antes do café, brilhos sobrevivem à luz do dia, e a rotina, intimidada, recolhe-se ao canto mais discreto do armário.

É tempo de o chão virar música.

No Recife, o Marco Zero respira como um pulmão antigo. Milhões cabem ali porque a alegria desaprendeu limites. O estandarte abre caminho e o povo segue, espremido e feliz, enquanto o frevo rasga o ar como quem assina o próprio nome. Há uma vertigem bonita em pertencer àquela multidão — ninguém está só quando o tambor encontra o peito.

Em Olinda, as ladeiras testam a fé dos joelhos e recompensam com eternidade. Os bonecos gigantes vigiam o mundo do alto, generosos e irreverentes, enquanto as sombrinhas coloridas inventam pequenos sóis particulares. Cada esquina parece guardar um segredo antigo, desses que só se revelam a quem aceita subir cantando.

Mais ao norte do desejo, Salvador transforma mar em coro. Os trios elétricos são navios de som atravessando ondas humanas, puxando vozes que sabem de cor o mapa da felicidade. O axé não pede explicação: ele acontece. E quando acontece, a cidade inteira se reconhece espelho, suor, abraço.

Mas o batuque também aprende a desfilar em linhas precisas. No Rio de Janeiro, a avenida vira templo e a noite se cobre de plumas, história e arrepio. Cada escola de samba entra como quem oferece um destino. É o instante em que a arte decide ser maior que o tempo — e consegue.

Em São Paulo, o ritmo é outro, mas a chama é a mesma. O concreto abre espaço para o sonho passar com disciplina e explosão. Comunidades inteiras transformam trabalho em espetáculo, costurando memória, orgulho e futuro em cada passo marcado na passarela.

Até que a quarta-feira de cinzas nos toque o ombro com sua delicadeza inevitável, viveremos assim: acreditando que o mundo pode ser reinventado por um refrão. Depois, a vida volta — mas volta diferente. Sempre fica um brilho escondido, uma música que se recusa a ir embora.

É a prova de que, quando fevereiro decide voar, o Brasil inteiro cria asas.

Heróis anônimos
Quando Rei Momo abre as portas e o Brasil aprende a flutuar, fevereiro voa, mas alguém costurou as asas.

No Recife que desperta no Marco Zero, há um vendedor de água que conhece a coreografia da multidão melhor que qualquer maestro. Ele calcula a sede pelo brilho do rosto, adivinha o cansaço pelo jeito do passo. Carrega nas costas um pequeno oceano particular e distribui sobrevivências. Enquanto o frevo rasga o ar, é ele quem impede que a alegria desidrate.

Em Olinda, entre uma ladeira e outra, a costureira acordou antes do sol há muitos dias. Foi ela quem conversou com o tecido, quem domesticou o excesso, quem pregou o último segredo da fantasia para que alguém pudesse, finalmente, ser outro. Quando o folião passa sorrindo, talvez nem imagine que veste horas de silêncio, linhas mordidas, sonhos alinhavados à luz fraca da madrugada.

Salvador pulsa em decibéis, e lá embaixo, no asfalto que vibra, o ambulante equilibra isopores como quem sustenta a própria arquitetura da festa. Ele canta junto, vende junto, sua junto. Sabe que o refrão também é feito de trabalho, e que cada latinha aberta é um brinde à resistência de continuar.

No Rio, quando a avenida se transforma em eternidade, o ritmista já atravessou muitas noites para chegar ali. O tambor é extensão do seu corpo, e cada batida traz o peso de uma comunidade inteira que se recusa a ser esquecida. Ele não desfila: ele funda o tempo. Quando a bateria acelera, o coração do mundo aprende humildade.

Em São Paulo, sob a geometria do concreto, outra costureira termina um ajuste invisível minutos antes do sonho entrar na passarela. Um aderecista sopra o pó do cansaço e devolve brilho ao impossível. Um componente respira fundo, agradece aos ancestrais e pisa firme: é agora.

O público vê o esplendor. Mas o esplendor tem raízes.

Até a quarta-feira de cinzas, viveremos a superfície luminosa do milagre. Depois, quando o silêncio tentar se impor, ainda será possível escutar — em algum lugar da memória — o rangido da máquina de costura, o estalo da tampa térmica, o rufar insistente que não dorme.

São eles que sustentam o voo de fevereiro.

E talvez seja por isso que o Carnaval sempre volta. Porque há mãos anônimas que nunca deixam a alegria cair.

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